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Duas Bloggers, Duas Histórias, Uma Doença : A Anorexia.

Duas bloggers, irmãs na doença, juntaram-se num só blog para contarem as suas vitórias. O nosso objectivo será sempre ajudar (se possível) quem esteja a passar por esta doença... a anorexia!

Desafio Alimentação

 

Fomos desafiadas pela nossa querida Mula (aquela blogger super talentosa que fez o nosso lindo header) para um desafio sobre a alimentação. Vamos então responder e agradecer à nossa menina pelo convite.

 

1. O que costumas comer no dia a dia?

Vânia: Agora? Como de tudo. A partir dos 20 anos comecei a apanhar o gosto pela comida.Como tudo o que faz mal... Quem me conhece diz que comigo é 8 ou 80.

Catarina: Adoro pão, fruta, sopa e doces. Não consigo resistir a chocolates, bolos, gomas…

 

2. Preferes doce ou salgado?

Vânia: Doces. Ainda não deu para reparar?

Catarina: Gosto muito de salgados mas sou viciada em doces.

 

3. E quanto a dieta, preocupas-te com isso ou comes sem pensar no amanhã?

Vânia: Eu acho que tenho fases. Há alturas em que como de tudo e que uso a desculpa do "já estive tanto tempo a privar-me de comida que agora posso" e depois o peso na consciência fica lá no cérebrozinho a matutar. Depois penso em fazer exercício e começar uma alimentação mais saudável... Mas penso que isso aconteça com todas as mulher. Existe sempre uma preocupação com o corpo, a imagem.

Catarina: Felizmente tenho um metabolismo que me permite comer de tudo e manter o peso mas mesmo assim tento comer moderadamente. Tento fazer uma alimentação saudável não tanto pelo peso mas sim pela saúde.

 

4. Qual é a tua comida e sobremesa favorita?

Vânia: Comida favorita? Bacalhau com natas e Francesinhas. (e massas!) Sobremesa? Não consigo escolher uma. Sou demasiado gulosa para colocar sobremesas de parte.  Mas já disse que gosto de chocolate, certo?!

Catarina: Comida preferida? Adoro pizza e massas. Lasanha, carbonara… Em relação a sobremesas acho que há poucas que não goste mas não resisto a um gelado.

 

5. O que é que odeias comer, mas comes porque precisas?

Vânia: Peixe. Odeio comer peixe (excepto bacalhau, atum)

Catarina: Odeio polvo, borrego, cabrito e marisco mas odeio tanto que não como mesmo.

 

6. Quanto pesas? Querias pesar mais ou menos? Estás satisfeita com o teu peso?

Vânia: Confesso que não faço ideia de qual o meu peso. Desde a anorexia que evito pesar-me. Sei que há um mês estava com 64kgs porque fui a uma consulta de rotina.  Mas gostava de ter menos os 4 kgs.

Catarina: A ultima vez que me pesei tinha 52kg mas actualmente devo pesar um pouco menos. Por norma a minha balança são os amigos e familiares que me alertam logo para o facto de estar mais magra. A verdade é que o numero na balança é só mesmo um numero o que interessa é estejamos bem connosco próprias.

 

7. Qual a fruta favorita?

Vânia: Melancia. Dêem-me melancias!

Catarina: Laranjas.

 

8. Comes ou gostas de verduras e legumes?

Vânia: Não sou grande adepta mas como. Também depende da forma como são confeccionados. Tento sempre incluir verduras e legumes nos cozinhados todos (até aqueles menos saudáveis).

Catarina: Gosto muito de verduras e legumes. Gosto de os comer cozidos, salteados, em sopa ou saladas.

 

9. Quantas refeições fazes diariamente?

Vânia: Nisso eu sou uma nulidade. Como quando como. Não tenho nenhum hábito de alimentação.

Catarina: Demasiadas ou quase nenhumas. Quando ando mais descontraída passo o dia a comer. Não sou pessoa de comer muito a uma refeição mas vou petiscando muito ao longo do dia. Quando ando mais apertada de trabalho ou preocupada o stress toma conta de mim. As horas passam a voar e quando dou conta percebo que já são horas de almoço e eu ainda não comi nada.

 

10. O que gostarias de comer, mas o teu consciente não permite?

Vânia: Pizzas,Hambúrguers, montes de Francesinhas, batatas fritas, e todas essas coisas que fazem mal.

Catarina: Pizzas e pão de alho. Se me deixassem não comia mais nada.

 

Muito obrigada à Mula pelo desafio.E por toda a ajuda e apoio...

Nós gostariamos de desafiar todos os que lêem o nosso blog a responder a isto. 

Como identificar e lidar com a anorexia

Todos sabemos (se não,devíamos) que os distúrbios alimentares são problemas sérios e que afectam as mais variadas pessoas, das mais variadas idades e sexos. O que muitos de nós desconhece é que afecta muito mais pessoas do que se pensa e que ainda há muita gente a morrer desta doença. Sabiam que dos 15 aos 24 anos a anorexia mata 12 vezes mais do que qualquer outra doença? E que, em 20% dos casos de anorécticos existe uma morte prematura?

Muitas das vezes pensamos que, pelo facto de não ser algo que nos calhe a nós, devemos manter-nos ignorantes relativamente ao assunto. Mas, garantimos-vos de que pode acontecer em qualquer família. Aconteceu nas nossas sem que nenhum deles esperasse! Pode acontecer com alguém da sua família, com algum dos seus amigos ou conhecidos. Qual a melhor forma então de ajudar? Observando e cuidando. Como? É isso que iremos mostrar. Claro que CADA CASO É UM CASO. E os nossos foram tão distintos mas tão iguais que vamos dar-vos algumas dicas que achamos mais importantes.

                          (imagem retirada daqui)

 

Como já sabem, a anorexia é uma restrição alimentar que vem de uma visão distorcida da realidade sobre o seu próprio corpo e um medo constante e intenso de engordar. Muitas vezes é fruto de problemas sociais e\ou pessoais e pode matar ou marcar a pessoa para a vida. Então, vamos ajudar?

 

O passo principal é OBSERVAR. Uma pessoa anoréctica não irá chegar ao pé de si dizendo estar com um problema de anorexia. Você, provavelmente, conseguirá ver, observando atentamente. (Se não conseguir, não se culpe pois uma pessoa anoréctica torna-se profissional na arte de ocultar e mentir - falamos por experiência!)

Observe o comportamento alimentar, a obsessão com o corpo, as diminuições de peso, a aparência física e as mais variadas desculpas para não comer. 

A pessoa anoréctica tem uma relação com a comida que pode levar a mastigar excessivamente. medir alimentos, contar calorias, pesquisar sobre os produtos, etc. Terá também uma obsessão com o seu corpo que irá fazer com que se veja gorda mesmo não estando. Irá pesar-se repetidas vezes e demorará tempos infinitos na casa de banho (outras têm aversão ao espelho e á balança). Estas pessoas baixam drasticamente de peso e camuflam isso com roupas largas que irá fazer com que passe um pouco despercebido a quem as rodeia. Utilizarão desculpas para não comer ou comer pouco ("Estou doente", "Não tenho fome", "Não gosto da comida",etc) mesmo que estejam em algum evento social. O facto de comerem irá proporcionar-lhes culpa e vergonha. 

Como tal, a pessoa anoréctica irá andar fraca, com tonturas, unhas e cabelos quebradiços, pele ressecada e pálida,  olhos amarelados, etc. Em termos emocionais também irá ver mudanças pois, devido à falta de nutrientes, o seu corpo estará desregulado e estão mais sujeitas a depressões e ansiedade. Irá notar a pessoa com mais irritabilidade, indiferença,dificuldade em concentrar, por exemplo. 

 

A pessoa anoréctica é alguém com baixa auto-estima, pelo que ouvirá muitas vezes dizer que não vale nada, que não faz nada bem, que não é suficientemente boa. Como tal, existe também um afastamento dos amigos, familiares e até das suas actividades habituais. 

 

          (imagem retirada daqui)

 

COMO AJUDAR?

Acima de tudo, NUNCA critique, NUNCA culpe, não grite, não faça ameaças, não desmoralize. Opte pelo positivismo, por comemorar cada etapa bem sucedida, por perguntar à pessoa pelos seus sentimentos, por mostrar que se importa e que gosta dela

Essas coisas de "ah. Vais morrer se não te cuidares" não resulta e a pessoa ficará mais stressada. Não o façam! Mostrem-lhe carinho, amor, compreensão

 

Muitas vezes, há quem diga que, se fossemos filhas delas, tinham tido pulso firme ou tal nunca teria acontecido (quantas vezes já o ouvimos?). Minha gente, garantimos-vos de que isso é TRETA! O chamado "pulso firme" não ajuda, apenas provoca mais raiva e revolta. E o "nunca teria acontecido" é pura ignorância relativamente à doença. Abram as mentes e pensem que pode acontecer até consigo, com a sua filha, com a sua irmã (estamos a falar no feminino mas existe também o lado masculino). 

 

Ajudem. Comecem por se informarem.

 

Beijinhos de duas pessoas que não queriam ter tido "pulsos firmes" nas suas doenças. 

 

O blog também foi à Sic... com a Catarina!

 Há umas semanas fomos contactadas pela Patrícia, da Sic, para participarmos num programa chamado "A Vida nas Cartas - O Dilema" com as nossas histórias e o nosso pequeno projecto. Porém, sendo eu de longe, não me pude deslocar até perto da nossa Catarina e disse-lhe que confiava nela para contar a sua história e falar sobre o nosso blog. Sem dúvida alguma que a nossa menina é uma óptima oradora e não poderia representar melhor este cantinho! Eu mesma não faria melhor nem sequer igual... (A sério, ela esteve mesmo bem, não esteve?)

O tempo de reportagem é curtinho, a sua história foi resumida ao máximo e conseguiu até falar sobre o " Duas Bloggers, Duas Histórias, Uma Doença : A Anorexia." Como foi falado pouquinho do seu trajecto, se quiserem conhecer melhor a história da nossa menina, basta carregarem em cima do nome da Catarina lá em cima. Assim conseguirão acompanhar toda a sua luta contra esta doença. 

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 Euzinha, que sou uma medricas nestas coisas, só tenho de agradecer a esta irmã que a doença me deu, por dar a sua voz, a cara (e eu sei que ela estava nervosa!), tempo e dedicação e ainda por partilhar a sua história connosco. Sinto-me extremamente orgulhosa desta mulher guerreira que, mesmo com tão pouco tempo pessoal disponível, ainda o perde a ajudar. E tenho de lhe agradecer por toda a dedicação a este projecto e por todo o carinho... Obrigada minha irmã!  Por teres até a coragem que eu não tenho...  E sei que desta vez te custou mais um bocadinho mas ficaste tão bem e representaste-nos tão bem!

 

Aproveito para agradecer todo o apoio que temos tido e todas as ajudas que já nos deram. Obviamente que não é só um projecto nosso, é de todos! Agradeço imenso. 

 

V*

 

O que é a anorexia nervosa?

Como já dissemos anteriormente, a anorexia nervosa não é uma decisão de vida. Nós não acordámos um dia, pela manhãzinha, e pensámos "Hoje sabia-me mesmo bem uma anorexia nervosa!". Não! Não foi uma escolha. Embora exista uma espécie de "decisão" em começar dietas, abstenções e coisas do género, é algo que provém de uma mente que está com um problema e que necessita, urgentemente, de ajuda.

É isso que queremos desmistificar aqui! Ao longo da vida, já fomos culpabilizadas como se tivesse sido algo pelo qual escolhemos passar. Como se fosse engraçado olharmos-nos no espelho e odiarmos o que vemos. Como se nós tivéssemos achado piada à azafama de médicos e hospitais, agulhas, vitaminas, etc. As coisas não são bem assim... 

 

E então, o que é mesmo a anorexia nervosa?

  • anorexia de origem grega = (a\an-negação) e (orégo-apetecer), negação do desejo por comer,do apetite. 

A anorexia nervosa é uma doença. Ponto! É uma perturbação no nosso comportamento alimentar que afecta, na sua grande maioria, mulheres jovens que tentam ter um controlo extremo no seu peso corporal, através de uma enorme restrição na alimentação. 

 Muitas das  vezes, a anorexia provém do facto das mulheres se sentirem infelizes com o seu  corpo mas, não advém somente desse aspecto. A infelicidade, a nível social, poderá igualmente desencadear a doença. A rejeição da sociedade, dos seus pares, a difamação, bullying, qualquer tipo de ofensas e\ou agressões, poderão levar ao desencadeamento da doença... (E, deixem-nos que vos pergunte: a culpa continua a ser da doente ?) 

 As angustias, os relacionamentos sociais falhos, a depressão, problemas familiares, a visão utópica de um "corpo perfeito" poderão igualmente levar a uma baixa auto-estima e, consequentemente, à doença. 

Uma vitima de anorexia pensará que, se for magra, os seus problemas serão dissipados e serão mais felizes. É uma luta desenfreada pela tentativa de alcançar aquele que julgamos ser o "corpo ideal". Mas, o problema é que, embora emagrecendo, a pessoa doente, não se verá magra e continuará infeliz. 

 

E a família? 

Vamos ser honestos, algumas das pessoas que percebe que a doença é isso mesmo (uma doença!) acaba por culpabilizar a família. Vamos então explicar-vos o nosso lado... 

Nós, doentes, tornamos-nos peritas na mentira e omissão! Conseguimos das mais variadas formas contornar diversas situações para que não percebam o que se está a passar. E agora é a parte em que nos dizem "Ah. Mas então vocês sabiam o que estavam a fazer". Sim e não! Pensávamos que o que estávamos a fazer nos iria ajudar mas que a família jamais iria compreender e iria tentar impedir isso de alguma forma. Por isso, por muito que nem tenhamos jeito para mentir, a mentira torna-se a nossa melhor arte. 

Além disso, a família é uma das partes mais importantes para a nossa recuperação. A grande maioria das vezes, são mesmo a salvação!

 

 

(imagem retirada de A anorexia tirou-lhe dez centímetros de altura. E muito mais.-Expresso)

 

Segundo dados da Direcção-Geral de Saúde (DGS),  os hospitais do nosso país contabilizaram 727 internamentos entre os anos 2010 e 2014, sendo, maioritariamente, pessoas do sexo feminino entre os 18 e os 39 anos de idade, seguidas de adolescentes até aos 17 anos. No que diz respeito ao sexo masculino, atinge, em maior número, jovens até aos 17 anos de idade.

 

 

E isto, é um pouco do que é a norexia nervosa. Não somos especialistas para falar a nivel médico, mas explicamos por palavras nossas pelo que passámos. Esperamos que compreendam e que, se tiverem algumas dúvidas, nos perguntem pois estamos cá para isso mesmo, para ajudar.

A ignorância da falta de informação

''Tiveste anorexia porque quiseste''

Se há coisa que me irrita e me deixa fula da vida, é quando ouço uma coisa destas! E, provém muitas vezes de pessoas que me eram chegadas na altura...
''Ah. Naquela altura em que tinhas as manias das dietas?'' 
Qual a parte que as pessoas não percebem de que não é uma dieta e muito menos é uma mania?!
Como é possível ainda existir tanta falta de informação e de sensibilidade ?! Vocês não imaginam o possessa que fico quando ouço destas pérolas! E sim, ouço-as mais vezes do que imaginaria...
Foi, por coisas destas, que eu e a Catarina tentamos  desmistificar um pouco essa doença.  Porque ouvir estas coisas, magoa. A serio, magoa mesmo! Parece que nos culpam por termos estado doentes. Que somos nós as culpadas por ela existir.
EU NÃO TIVE  ANOREXIA PORQUE QUIS. EU NÃO ESTIVE DE DIETA! 
Vocês pensem bem quando falam...imaginem que um filho vosso tem esta doença. Vocês vão continuar a agir assim, com ignorância?  Por favor não o façam! Não irá ajudar. Muito pelo contrario!  Tentem informar-se um pouco. Se não ajudam, não atrapalhem. (Sim, acreditem que pode atrapalhar muito na recuperação de alguém com anorexia). A anorexia é uma doença e deve ser tratada como tal. 

Esta história não é nossa, mas é de uma das nossas...

Esta história não é nossa. Não fomos nós que passamos por isto. Mas, foi uma das nossas! Uma das que superou... Deixamo-vos com a história da Vanessa:

 

"A minha história foi muito oscilante porque sempre fui gordifas e um bom garfo, todavia, não me encaixava nos cânones da vila onde vivia: todas eram morenas, adelgaçadas e de olhos verdes. Eu era o oposto. Sempre quis ser igual as meninas de lá porque apaixonei-me por um tipo muito bonito e a beleza era tudo para ele, todavia, sempre fui gordifas (até me refugiei mais na comida) ! Depois estive noiva sete anos; família pacata, sem julgamentos, namorado que me amava... Sou nortenha; por norma come-se muito por lá ! Sempre fui um garfo exageradamente saudável ! Comia Francesinhas a pacotes ! Comecei a emagrecer quando a relação acabou: perdi o apetite e queria ir conquistar o outro que só queria saber de beleza e para isso era preciso eu ser magra e, óbvio, perdi o apetite.

Não, eu estava sozinha no mundo !

Numa discussão sai de casa e passei a viver em quartos alugados e a trabalhar como empregada de mesa, consequentemente, trabalhava que nem uma moura e vivia sem comer e sem ter fome, todavia, nunca quis ser acompanhada por um médico mas ainda me derigi a psiquiatria as urgências algumas vezes e ai encontrei uma miúda que também sofria de anorexia, boa aluna, filha de professores, muito bonita.... Amas adoecemos com infeções nos pulmões na mesma atura (em inícios de 2009) por não termos quaisquer defesas no corpo ... Eu estava uma lástima. Não conseguia respirar e o meu patrão até colou na cabeça que poderia ter tuberculose: só tossia, respirava com dificuldades e conseguias ouvir-me a respirar a kms de distância tal era a chiadeira... Tive o inicio de uma pneumonia e não tinha defesas para combate-la mas miruculosamente combati-a.

A miúda de 15 anos não resistiu: faleceu, perante uns pais agonizados e incrédulos que viram a sua filha morrer !

A mãe que é professora de psicologia redigiu um livro acerca da doença da filha e de como foi encarar a morte dela.

Também me ajudou na minha luta pessoal. Vê-la morrer fez-me engordar em seis meses para 62 kilos" #HOTDEVIL

Vocês perguntam. Nós respondemos!

Só para informar que continuamos a aceitar perguntas para a nossa rubrica Vocês perguntam. Nós respondemos.

Façam as perguntas que quiserem, sem medos. Nós vamos tentando responder a todas, cada uma num post de forma a que a pergunta possa ser esclarecida por nós, pela nossa experiência e pontos de vista. 

Beijinhos e Bom Fim de Semana,

Catarina e Vânia

Outras histórias...

Saiu um artigo no Expresso que nos foi somente um bocadinho familiar. Sim, "somente um bocado familiar" pois nenhuma de nós chegou ao ponto em que a protagonista desta história chegou.

Também a nossa querida Débora, do blog Heidiland, achou interessante esta matéria e lembrou-se de a partilhar conosco. Partilhamos convosco também (poderão ver a matéria completa em A anorexia tirou-lhe dez centímetros de altura. E muito mais.).

 

"Levados ao limite, os distúrbios alimentares matam. Tratados, são curáveis. No verão, as adolescentes expõem os corpos, comparam formas, tomam decisões. Algumas escolhem o caminho da privação alimentar. Desde 2010 realizaram-se 12.858 consultas e só em 2015 foram 47 os internamentos no Hospital de Santa Maria. Patrícia é um caso-limite. Há 25 anos sofre de anorexia nervosa. A doença provocou-lhe uma severa osteoporose e, quando estava a morrer, apenas nos Estados Unidos encontrou solução para lhe sustentar a coluna. Conta o que passou para que não se repita"

 

"Aos 34 anos, o peso mínimo que Patrícia chegou a ter foi 20 quilos. Pouco, para quem media 1,60 metros. O cérebro deixou de responder a contento e os órgãos começaram a falhar. Hoje, depois de vários internamentos e de uma complexa cirurgia nos Estados Unidos, Patrícia pesa 38 quilos e come para mudar um percurso de vida marcado por uma anorexia nervosa grave. Pelo caminho perdeu dez centímetros de altura e ganhou oito parafusos cromados na coluna. Escolheu morrer, mas foi-lhe dada a oportunidade de viver e por isso decidiu contar a sua história. Porque acredita que será possível ajudar outras jovens a evitar a privação alimentar severa.

 

1. NO INÍCIO, LAVAVA AS MÃOS

“Desde que sou gente que me recordo de ter uma relação especial com a comida. Lembro-me de estar sempre a lavar as mãos, até criar frieiras. Acho que comecei a fazê-lo com nove anos. Pensava que tudo o que entrasse no meu corpo tinha de ser puro. No fundo da minha memória há uma recordação de estar a mamar e não querer, sentir repugnância.”

Assim, num golpe, Patrícia explica como o distúrbio alimentar começou. Como se fosse indissociável da própria identidade. A doença foi-lhe diagnosticada aos 13 anos, quando passou a ser acompanhada psicologicamente. Tem 39 e é considerada pela equipa que a acompanha no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, como um dos casos mais graves que ali deram entrada. É um exemplo limite que serve para mostrar até onde a privação alimentar pode levar uma pessoa. A maior parte dos casos de anorexia nervosa que são tratados recuperam e apenas 30% se tornam crónicos (ver entrevista abaxo). É o caso de Patrícia. Nada no seu relato é ficcional.

 

2. LINHAS ARREDONDADAS NÃO

“Não gostei de ver os meus seios a crescer e as ancas a arredondar. Comecei a usar T-shirts em cima de T-shirts para esconder o corpo. Queria travar aquilo. Tinha medo. E não era de comida. Não sei do que era. Aos 13 anos fui fazer uma ecografia porque a minha menstruação não era regular e encaminharam-me para uma consulta psiquiátrica. Foi no verão e o médico recomendou o internamento. Na altura, eu estava sempre a pensar no que poderia fazer para não comer. Tinha muita fome, mas, mais importante do que me saciar, era encontrar uma forma de enganar as pessoas e não comer. Cheguei a pesar 27 quilos.”

Durante dois meses Patrícia esteve internada. No hospital, apenas outra jovem, então com 20 anos, lhe servia de espelho. Foi a primeira vez que conviveu com uma pessoa com anorexia. Alguém que conseguia ser ainda mais magra do que ela. Um dos passatempos era a comparação do diâmetro das coxas e a outra batia-a aos pontos porque tinha as pernas ainda mais estreitas. Em ambas, o mesmo sentimento de desconforto e inadaptação.

 

3. GANHAR PESO E AINDA SER MAGRA

“Entre os 15 e os 28 anos pesei cerca de 45 quilos e estava satisfeita porque ninguém me chateava e ainda diziam que era magra. Acabei o colégio, entrei para Arquitetura, fui estudante Erasmus em Paris, comia baguetes. De volta a Lisboa, comecei a trabalhar em cinema, à frente das câmaras, e parecia que finalmente me tinham dado uma vida para viver: a da personagem. Quando atuava não pensava em comida. Foi a altura em que me senti feliz no meu corpo. Mas o meu único irmão morreu de leucemia. Eu tinha 28 anos e ele tinha 31.”

Não comer foi a saída encontrada por Patrícia para lidar com a perda. Em causa já não estava o objetivo de ser magra, simplesmente não conseguia comer. O corpo dela estava programado para ter fome e no fim do curso pesava 32 quilos. Passaram-se seis anos de alimentação insuficiente, durante os quais foi perdendo peso, gordura, músculos. Tinha dores terríveis e ficou encurvada. Os órgãos estavam comprimidos, sem espaço para funcionar corretamente, sofria de diarreia. O pescoço não podia sustentar-lhe a cabeça. Patrícia não queria, mas, mesmo que quisesse, não conseguia alimentar-se. Aproximou-se do peso limite: 20 quilos.

 

4. RESPIRAR, SÓ NOS ESTADOS UNIDOS

“Aquela era a pior maneira de estar viva. Sofria de um achatamento intervertebral devido à osteoporose causada pelos muitos anos de anorexia. Estava disforme e custava-me respirar. Certo dia, enquanto fazia exercício, senti a coluna estalar e as vértebras ruir. Procurei ajuda na internet e um cirurgião respondeu-me do Hospital Monte Sinai, em Nova Iorque. Disse que me operava se eu pesasse 20 quilos. Tinha 34 anos e aqui em Portugal ninguém queria ajudar, diziam que não tinha peso suficiente para suportar a cirurgia. Estava a morrer. A operação nos Estados Unidos era muito cara, mas o meu pai, que sempre foi o meu pilar, já tinha perdido um filho e sabia que estava a perder a única filha que lhe restava. Vendemos a nossa casa em Lisboa. Era a minha vida ou a casa.”

A cirurgia de osteosíntese para juntar as vértebras da coluna com parafusos no Monte Sinai em 2012 custou cerca de 270 mil euros aos pais de Patrícia. Tiveram de se mudar para uma casa da família na zona da Covilhã. E foi ela quem tratou de tudo para partir. Além dos detalhes burocráticos, do envio de exames por e-mail, era preciso preparar a alimentação: saquinhos com cereais integrais e tofu. Em Nova Iorque, o neurocirurgião que a operou ficou tão impressionado com a situação que não hesitou em avançar, apesar dos riscos. No dia em que completou 35 anos, Patrícia foi operada.

 

5. NA CIDADE QUE NÃO DORME

“Quando cheguei ao hotel, parecia que todos olhavam para mim por ser tão magra. No hospital, nas vésperas da operação, os médicos mandaram-me comer tudo o que conseguisse, um conselho assustador para qualquer anorética. Eu pensava que não iria suportar a cirurgia e sentia-me tranquila por ir morrer. Estava à espera disso há muito tempo. Mas no dia a seguir à operação, acordei. Foi uma sorte. Agora quero viver. Nunca mais quero sentir a sensação de ter menos de 35 quilos, quando o meu cérebro não me responde. Quanto mais alimento dou ao meu corpo, menos anoreticamente eu penso.”

Patrícia partiu sozinha para Nova Iorque. Com ela, levava os seus 20 quilos e pequenos sacos com amêndoas secas. Ficou cerca de um mês. A recuperação foi dura porque tinha dificuldade em andar devido à falta de forças e o movimento fazia parte do tratamento. Os médicos insistiram, apoiaram-na. O corpo dela assemelhava-se ao de uma mulher com 80 anos. Depois da cirurgia, usava um colete plástico para alinhar a coluna e tinha uma grande cicatriz nas costas.

 

6. NADA É MAIS PERFEITO DO QUE O ZERO

“De regresso a Portugal, continuei a restringir a alimentação. E a fazer exercício. Como não consigo fazer muito mais, andava. Acordava de madrugada, saía descalça, no frio, e andava muito, subia escadas. Quando cheguei aos 22 quilos fui internada no Hospital da Covilhã e entubaram-me, alimentaram-me por sonda. Foi como se tivesse sido violada. Mas sobrevivi. Vim para Lisboa para novo internamento. Há dez anos que nada mais se passa na minha vida. Mas desta vez vai correr bem: finalmente fiz as pazes com a morte do meu irmão.”

Este ano, em Santa Maria, Patrícia não foi sedada. Medicada, sim. Os médicos administraram-lhe uma dieta hipercalórica. Hoje, quando se deita, os parafusos doem-lhe. Estão lá para ficar. Pesa 38 quilos e a meta são os 40. Sabe que se baixar novamente para os 20, morre. O corpo parou de se desmoronar, mas há um longo caminho a percorrer. Deixar de comer dá-lhe imenso prazer: “Ainda sou prisioneira, continuo a pensar que nada é mais perfeito do que o zero, que um corpo vazio está limpo e organizado. O meu corpo é o meu campo de batalha. 

Por: Christiana Martins

 

Nós as duas desejamos imensa força a esta guerreira. Nenhuma de nós passou pelo mesmo que ela mas ficamos solidárias e achamos de extrema importância mostrar no nosso blog a história da Patricia. 

Um beijinho na alma desta guerreira... e um nas vossas! 

 

A doença - Vânia

(Continuação daqui)

...e essa meia maçã começou a ser a única coisa que comia todos os dias por volta da hora de almoço. Quando o corpo me pedia mais alguma coisa, ou seja, quando eu me começava a ir abaixo, comprava uma fatia de salame- e não a comia toda. Mas isso apenas acontecia esporadicamente.

Emagreci muito. E em pouco tempo. Usava roupas largas já antes de emagrecer por isso era difícil de se perceber os quilos que já tinham sido perdidos.
Embora existisse sempre uma preocupação da minha mãe sobre as minhas refeições, eu mentia. Não tenho jeito para mentir. A sério que não! Sou daquelas pessoas que vão a meio da mentira e já se estão a rir feitas parvas. Mas nesta altura tornei-me numa mentirosa ''profissional''. Dizia que tinha comido bem na escola ou com os meus amigos de escolas diferentes (ela não sabia quem era por isso estava tranquila). Aos meus amigos dizia que tinha de comer em casa. Coisas do gênero. As mentiras iam saindo conforme os dias. Embora ache que a minha mãe começava a desconfiar pois as perguntas eram cada vez mais frequentes, penso que ela nunca esperou que chegasse ao ponto que cheguei. Até porque, há quase 15 anos, a anorexia não era tão conhecida como é agora e a maioria das pessoas nem sabiam o que isso era.
Um dia, ao entrar no duche, a minha mãe entrou na casa de banho e ficou preocupada. Segundo ela, ''dava para contar os ossos''.
Decidiu marcar consulta na médica de família. Foi aqui que fui diagnosticada, deveria ter 15 ou 16 anos, talvez. E seguiram-se tempos de consultas semanais, quinzenais e depois mensais. Entre pesagens, medições, análises, exames e vitaminas, as minhas notas baixaram e quis desistir da escola no meu 11ano mas a minha mãe não deixou. Nunca tive uma negativa, mas baixei imenso a média que tinha e isso desmoralizou-me. Desisti de dançar no rancho folclórico (adorava dançar e conhecer pessoas de todo o país) pois não tinha forças para longas viagens e para o meu fato que até era pesado. Apesar de desistir do rancho, continuei a participar em todos os torneios desportivos entre escolas mas o meu rendimento não era o mesmo. Chegava a ficar com tonturas e tinha de parar ou ser substituída. Algumas vezes fui até ao hospital com fraqueza ou até porque caia... claro, não tinha forças para aguentar as canetas!
Todos os dias a minha mãe e a minha avó me telefonavam nas refeições para garantir que comia alguma coisa. Chegaram a haver dias em que a minha avó me ligava a chorar e a implorar que comesse. E isso mexeu comigo! Também a minha prima (fomos quase sempre da mesma turma) e amigos começaram a acompanhar-me nos almoços mesmo que eu lhes tentasse dar a volta para que não o fizessem. Levavam-me aos meus sítios preferidos para garantir que comia alguma coisa. A minha mãe e avó cozinhavam sempre o que eu mais gostava!
Aos poucos fui começando a comer...
Porém, a escola acabou e, embora já comesse melhor, ganhei problemas no estômago. Tudo o que comia, vomitava. Andei assim um ano até ser correctamente medicada e o problema começar a ficar controlado. Foi uma das mazelas com que fiquei, entre muitas.
Em 2010 comecei a cozinhar e a ganhar gosto pela comida. Não sabia o que era gostar de comer ou ter fome, até aí!
E cá estou...

Vocês perguntam. Nós respondemos # 4

E voltamos mais uma vez com a nossa rubrica.

Desta vez, conforme o que dissemos anteriormente, é altura de responder á pergunta da nossa querida Kikas.

 

P: Olá queridas a minha pergunta é algo que já ouvi falar várias vezes: É verdade quando dizem que quem passa/teve uma anorexia ou anorexia nervosa, a mesma acompanha a pessoa o resto da vida? Ou seja, nunca se fica inteiramente curada/o da/s mazela/s?

 

Catarina: Não sei se todos os casos são iguais mas eu acho que a doença nunca me deixou. Sei que venci a doença mas, por vezes, sinto que ela está escondida nas sombras à espera que eu dê um paço em falso. acho que ganhei este medo durante o internamento. Conheci uma senhora que tinha estado doente em jovem e tinha-se curado. Depois aos quarenta separou-se e os problemas fizeram-na voltar para a doença. Esta história juntamente com outras vez-me perceber que a taxa de recaídas é bastante grande, o que me leva a ter receio. Nunca dei conta que estava doente o que é que me dá certezas que não posso ficar novamente sem me aperceber? A opção que tomei foi não me deixar intimidar por esta sombra que me segue e trabalhar diariamente para nunca a deixar voltar a tomar conta de mim.

 

Vânia: É uma pergunta que me deixa com algum medo pois soube de casos de recaídas já bastante tardios. Mas, não podemos pensar dessa forma.
A minha médica disse-me uma vez que a anorexia era para a vida. E acho que é. Até porque as mazelas ficaram e infelizmente são mais do que as que gostaria e que me atrapalham a vida de vez em quando... são tudo coisas que não irão voltar a ser o que eram.
Hoje em dia como de tudo (pelo menos quando o estômago deixa!) e às vezes até demais. Ganhei gosto pela comida, coisa que até há pouco tempo não conhecia. Sinceramente, não me vejo a conseguir voltar a deixar de comer como fiz. Porém, há dias em que me olho ao espelho e volto a não gostar do que vejo. Mas depois passa! Pelo menos, até agora tem passado. Sei que acontece a muitas mulheres, mesmo não tendo tido anorexia. Por isso, mais vale pensar que é só uma fase de mulher e que nada tem a ver com a doença.
Quando a minha avó faleceu, tive uma fase em que não conseguia comer. O mesmo aconteceu quando foi o meu avô e depois o meu padrinho. Mas voltei a mim, não podia fazer a minha família passar por isto outra vez. E acho que o facto de conseguirmos pensar também nos nossos e saber o que já se sofreu no passado que não nos deixa cair novamente

  

 

Obrigada, Kikas, pela pergunta. E na próxima rubrica contamos responder à nossa querida B♥.

Podem continuar a fazer as vossas perguntas pois vamos tentar dedicar um bocadinho de tempo a cada uma. :-)

E como se juntam duas bloggers que não se conhecem?

Bem, este post é uma surpresa á nossa Catarina... uma espécie de homenagem á guerreira que ela é e que admiro imenso! 

 

Vamos começar pelo princípio, certo? Pois bem, ambas já interagiamos no blog pessoal de cada uma sem sabermos da história de vida uma da outra, já tínhamos criado até alguns laços com o tempo. Um dia, uma rapariga, a Goretti, pedia nos blogs que a ajudassemos na sua tese, contando problemas alimentares. Eu, que nem sou nada desbocada, partilhei um pouco da minha história e a Catarina comentou que também tinha passado pelo mesmo. Trocamos histórias de vida e foi assim que nasceu esta irmandade.

Pouquíssimo tempo depois, fui contactada pela rtp para ir contar a minha história. Como estava a terminar o meu estágio não podia estar a pedir dias para lá ir e achei que a Catarina seria perfeita para nos representar. Contei á pessoa,  contactei a Catarina (claro!) e ela acabou por ir. Foi super prestàvel, embora estivesse nervosa. E acham que haveria alguém melhor para nos representar que uma pessoa que passou pela doença e agora é uma mãe babadona destas? Não! A Catarina era perfeita para falar por nós. (E esteve tão bem.)

E assim foi. No fim, tanto ela como eu achamos que nos soube a pouco, que abordaram pouco o assunto e que este tema merecia ser mais divulgado. Foi assim que nasceu o desejo de criar este blog. Após uns meses a falar, de pesquisas, de muito trabalho na escolha do nome e de como iríamos fazer isto, foi criado este menino. E já lá vai quase um mês e com um feedback fantástico. Obrigada a todos por isso!

 

Bem, vamos ao que interessa. Isto será sobre a Catarina. É um agradecimento da minha parte a esta pessoa fantástica. E porquê? Porque a admiro imenso , não só por causa do seu passado e do seu presente mas por ser sempre uma pessoa disponível para tudo e que tem ideias fantásticas que eu não teria. É por ela que este blog acaba por ter mais vida.

Obrigada minha linda, não poderia ter conhecido uma ''irmã na doença'' mais atenciosa e simpática. 

 

 E agora, convido-vos a ver a nossa Catarina no programa "Agora Nós" a dar a voz por nós. Obrigada Catarina ( Ela esteve tão bem, não esteve???)

 

Cá está o link:

http://media.rtp.pt/blogs/agoranos/artigos/viver-com-anorexia_8288

 

O início - Vânia

Ao contrário da Catarina, não tive propriamente um ''início'' desta doença. Desde sempre que me recordo de não gostar de comer e de deitar a comida fora -mesmo que fosse só um iogurte! Nunca tinha fome e quando era obrigada a comer inventava mil e um truques para não o fazer ou deitar a comida fora. (Acho que posso dizer que começou desde pequena e que acentuou em adolescente.)

Na minha adolescência tive um desenvolvimento tardio e era daquelas miúdas cujas ''pelosidades'' eram mais escuras e a minha mãe achava que eu era demasiado nova para começar a fazer depilação. Comecei a ser vítima de gozo por parte de alguns colegas de escola (eu sei que eram brincadeiras mas estava demasiado sensível para ver isso). Era também muito magra e não tinha ainda peito, ao contrário das minhas amigas que já eram todas desenvolvidas. Confesso que comecei a odiar o meu corpo, a ter nojo de mim mesma, a achar que era um monstro - sim, seria essa a palavra certa na altura!

Ao contrário da Catarina, nunca fui das meninas populares. Fui sim das que eram gozadas por não ser como as outras, embora tivesse muitos amigos e fosse bastante sociavel. Hoje sei que eram somente aqueles comentários que dizem por brincadeiras- eram rapazes! Basicamente eram comentários em brincadeira a dizer que saia ao meu pai, que se tinham enganado e que eu não era rapariga. Sorria quando diziam isso mas depois ia chorar para a casa de banho da escola, sozinha. Nunca desabafei com nenhuma amiga pois tinha vergonha... e tinha medo de ser ainda mais gozada!

Uns anos mais tarde, o meu peito, rabo e coxas desenvolveram imenso. Isso fez-me ganhar uns quilos valentes. Comecei a odiar ainda mais o meu corpo, ganhei estrias e apanhava rapazes a olhar para o meu rabo, principalmente. Na minha cabeça, eles achavam-me horrível e iriam gozar comigo. Já tinha sido gozada antes, porque seria agora diferente?

Além disso, as minhas amigas usavam o 36 e 38 e eu lá andava nas minhas calças 40 e 42... Eu, a gorda!

Seguiu-se assim a minha ''dieta'' - comer meia maçã por dia. Somente e apenas a minha meia maçã...

Para quem não nos conhece...

Percebemos agora que começamos o blog sem nos apresentarmos devidamente. Muitos dos que nos lêem já nos conhecem mas muitos não fazem ideia de quem somos. Resolvemos por isso fazer uma pequena apresentação formal.

 

- Olá eu sou a Catarina tenho actualmente 32 anos. Trabalho como supervisora num operador logístico e tenho quatro filhos que me enchem o coração de orgulho.

A anorexia entrou na minha vida tinha eu 14 anos. Durante os dois anos seguintes limitei-me a deixar que ela manda-se em mim. O meu dia a dia limitava-se a contabilizar o que comia e o que não comia. O objectivo era comer cada vez menos até que pura e simplesmente deixei de comer. Passei por um internamento, muitas consultas e terapias. Tive pontos altos e baixos até que finalmente aos 18 anos tive alta das consultas. Hoje em dia tenho uma vida perfeitamente normal. Não foi fácil, não foi rápido mas é possível.  Mais tarde vamos contar-vos as nossas histórias para que percebam que há luz ao fundo do túnel.

 

-E olá, eu sou a Vânia. Tenho 28 anos, sou do signo peixes e estou, neste momento, desempregada. Ao contrário da Catarina, só tenho um gato. Nada de filhos, ainda. :-p

No meu caso, julgo que anorexia sempre existiu na minha vida. Desde pequena que não gostava de comer nem nunca tinha fome. Deitava comida fora, dava-a aos animais ou escondia-a. Cheguei até a leva-la na boca e deita-la na sanita para a minha mãe não ver!
Sempre fui extremamente magra até aos meus 15\16 anos. Nesta altura ganhei muito peito, rabo e pernas. (Como dizem os meus amigos, estava ''boazuda''.) Devo ter tido 76 ou 78kg's mais ou menos e, em muito pouco tempo, emagreci á volta de 20kg's. Foi nesta altura que a minha mãe pegou em mim e me levou a uma consulta onde fui diagnosticada como tendo uma anorexia nervosa. Ainda emagreci mais 10kgs durante todo o processo mas, com muita ajuda e força de vontade posso dizer que fui superior a ela (lá para os 20 anos, penso eu) e que estou cá para contar a minha história.
Com o tempo ganhei gosto pela cozinha e, hoje, adoro comer! Quem diria, han? :-)

 

E somos nós!

Para quem não nos conhece, ficaram a saber um pouco das nossas histórias e de quem somos. Ao longo dos tempos vamos desvendando mais um bocado e esperamos que possamos contribuir para que exista mais informação sobre a doença da qual ambas fomos vítimas. 

Um muito obrigada a todos, mais uma vez, pelo carinho e seriedade com que nos tratam a nós e a este nosso projecto.

Agradecemos também ao blog Delito de Opinião pela divulgação do nosso blog. Muito obrigada, Pedro! 

Toca a perguntar!

Queremos agradecer imenso a forma como receberam este blog. Obrigada. Foi muito bom sentir o vosso carinho e a vossa curiosidade sobre este tema. É sempre gratificante saber que as pessoas acreditam em nós para falar sobre isto e que nos querem ''ouvir''. 

Um obrigada também ao blog Delito de opinião pela divulgação do nosso pequeno projecto.

 

Para começar, e como queremos que façam parte deste blog, vamos pedir-vos que nos façam perguntas sobre o que tiverem curiosidade, dúvidas ou sobre o que acharem importante que falemos por aqui. Iremos depois respondendo...Queremos ajudar quem esteja a passar por esta doença mas também achamos importante poder informar e esclarecer dúvidas a quem nunca lidou com a anorexia. 

No passado fomos nós e no presente estão outras pessoas a passar por isso. Mas, no futuro, esta doença poderá estar mais próxima de qualquer um. Nós e as nossas famílias somos a prova de que não acontece só aos outros.

A informação será importante e por isso estamos interessadas nas vossas dúvidas e curiosidades!

 

Sintam-se á vontade para perguntar o que quiserem.

 

Obrigada mais uma vez! 

 

Beijinhos,

Catarina e Vânia 

E, finalmente, o Blog!

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 Olá e sejam muito bem-vindos ao nosso blog.

Como já dissemos nos nossos blogs pessoais, o nosso objectivo na criação deste blog conjunto,será sempre tentar ajudar (no que pudermos) quem esteja a passar por esta doença: a anorexia. Não somos médicas nem tão pouco somos profissionais desta área, sabemos apenas aquilo pelo que passámos e esperamos poder ajudar contando as nossas próprias histórias e mostrando as nossas vitórias.

Esperamos também poder falar e mostrar o lado de outras pessoas que tenham passado ou estejam a passar por uma situação igual ou semelhante às nossas (poderão contactar-nos por aqui ou por email). Queremos mudar mentalidades e preconceitos relativamente a esta doença e mostrar o lado de quem é anoréctico. 

Tendo ambas sofrido de anorexia, sabemos o importante que é sentir apoio nesta fase das nossas vidas. Pelo que, estamos aqui! Se nos quiserem contar a vossa história, se quiserem desabafar, se quiserem contar os vossos medos e anseios, e até se quiserem partilhar no nosso blog a história pela qual passam ou passaram... estamos aqui!

Espero que nos venham visitar e nos possam dar o vosso feedbak. Aceitamos sugestões e criticas, desde que NUNCA (mas mesmo nunca) usem essas mesmas criticas contra quem sofre ou sofreu desta doença. É um tema demasiado sensível, pelo que teremos sempre o cuidado necessário ao falar sobre ele e pedimos para que também o façam. Caso se verifique o contrário, faremos queixa nas entidades responsáveis. (Eu sei que não deveria de existir necessidade de escrever isto mas, infelizmente, há sempre engraçadinhos que tentam gozar com tudo e decidi que seria melhor deixar tudo claro no primeiro post.)

Nós somos a Catarina e a Vânia. A mesma doença, histórias diferentes mas o mesmo final... A vitória! 

Sintam-se bem vindos pois serão sempre bem-vindos!