Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Duas Bloggers, Duas Histórias, Uma Doença : A Anorexia.

Duas bloggers, irmãs na doença, juntaram-se num só blog para contarem as suas vitórias. O nosso objectivo será sempre ajudar (se possível) quem esteja a passar por esta doença... a anorexia!

Anorexia... Porquê?

Ora, certamente não terá sido porque um belo dia de manhã acordamos e pensamos "E hoje que me estava a apetecer tanto padecer de uma anorexia nervosa..."  Nem tão pouco é porque nos deitamos a rezar a Deus Nosso Senhor por uma anorexiazinha como dádiva! E não, também não a pedimos ao menino Jesus nem ao Pai Natal. 

 

 

Jamais poderei falar por todos os doentes de distúrbios alimentares, cada caso é um caso e cada um sabe onde lhe aperta o sapato (sapatilha, bota, sabrina, wathever...). A verdade é que existem sempre algumas coisas com as quais nos identificamos uns com os outros. Em todos, existe uma péssima relação com a comida (oh, really?!) e, no caso da anorexia, uma visão errada relativamente ao corpo. Muitas das vezes, nós olhamos ao espelho e vemos uma realidade diferente da que uma pessoa sem anorexia verá... Nós NUNCA nos vemos magras, lindas e maravilhosas! Por muito magras que estejamos, conseguimos sempre encontrar banhas em algum lado (elas podem nem existir, mas nós vemos!)

E reforço, não é uma dieta! Muito pelo contrário, é uma ausência cada vez maior de alimentos. E, apesar de ser mais comum em pessoas do sexo feminino, não é uma doença somente nossa!  Aliás, tendo em conta as redes sociais e a busca pelo corpo perfeito, acho que cada vez mais os adolescentes irão sofrer de distúrbios alimentares independentemente do sexo. Até porque os miúdos são cada vez mais maldosos até na internet (miúdos e gente grande a ser parva, também!) e aproveitam que são os melhores do mundo atrás de um telemóvel ou de um pc...  (isto sou eu a escrever e não nenhum cientista... Pensamentos meus!) 

 

 

Prever? Não se prevê. Os pais ainda não são o Bruxo de Fafe nem a Maya para preverem um distúrbio num filho... Mas acho que têm de estar atentos ás redes sociais dos filhos (o bullying muitas vezes contribui para uma baixa auto-estima e para um desequilibro da pessoa) e ver a malta em casa, como andam, o que comem, etc.

Como ajudar? Não desvalorizar, não culpar a pessoa, não serem imbecis, apoiarem, incentivarem, elogiarem, acarinharem... e, fazer com que vá ao médico, de mansinho, como fazemos quando queremos levar uma criança ao dentista! E tentem perceber em que fase a pessoa está em termos psicológicos... acima de tudo isso. 

 

Beijinhos e abraços destes ossinhos agora com gordurinhas, marcado com estrias e celulite... 

Anorexia e a Pandemia - Reportagem Notícias Magazine

Estou a tentar voltar aos meus blogs... Desta forma, optei por vir aqui também dar um "oi" . 

Nem eu nem a Catarina acabamos com o blog ou com a preocupação em ajudar quem passe/passa por este problema (muito pelo contrário!). Mesmo em off já fizemos uma reportagem e também temos respondido a alguns emails que nos mandam... Da nossa parte, obrigada! Porque realmente é muito bom saber que podemos ajudar. 

Apesar de alguns erros na reportagem, pois foi por telefone e a ligação era um tanto ou quanto mázinha, acho que está o essencial! 

Cá vai a mesma:

Sem Título.jpg

O confinamento fez disparar os pedidos de ajuda de doentes com perturbações do comportamento alimentar, anorexia em concreto. Os conflitos familiares e a desregulação das refeições explicam as recaídas de quem tem uma relação patológica com a comida. A luta contra o insustentável peso da magreza até à cura, na primeira pessoa.

 

“Ainda hoje, quando me olho ao espelho, acho que estou bem.” Ana Beatriz, 16 anos, luta há três contra a anorexia nervosa. Pesa 41 quilogramas (kg), tem noção de que sofre de uma doença grave e que precisa de comer e ganhar peso para segurar a vida. Porém, algo tão instintivo para a maioria de nós é uma tormenta para Ana Beatriz. E agora, sem aulas, confinada com a família, a ansiedade é palpável.

Depois de muitos altos e baixos, Ana Beatriz diz-se “estagnada”. No peso, que persistentemente não aumenta, nos sonhos – “não consigo imaginar o que poderei vir a ser”. O discurso é racional e estruturado. Aceita a doença que a acometeu, como um vírus que se lhe agarrou à pele e contra o qual luta todos os dias, todas as horas. A anorexia é vivida a tempo inteiro. Relata, quase com objetividade distante, o que se passa no corpo, a fraqueza, a amenorreia, a sensação de frio extremo a ponto de a fazer chorar de dores.

Nem sempre foi assim. Até aos 13 anos, comia normalmente. Pesava 53 kg e media 1,65 m – mais ou menos a altura que tem agora porque a severa privação alimentar travou o crescimento. “Desenvolvi-me mais cedo do que as minhas amigas. Comecei a comparar-me com elas e a achar que estava gorda. Resolvi reduzir nos açúcares, evitar certos alimentos mais calóricos, ter mais cuidado com o que comia.”

Era o início, insidioso, de uma doença que embora tenha uma incidência relativamente baixa (0,3 a 0,4% da população) assume uma gravidade clínica extrema, pelas sequelas a longo prazo, e porque pode conduzir à morte, seja por desnutrição, seja por suicídio (é a perturbação mental com a taxa mais elevada). Afeta sobretudo meninas (90% dos casos) com traços de perfeccionismo, obstinação e baixa flexibilidade.

A evitação de certos alimentos rapidamente escalou para uma restrição generalizada. O peso de Ana Beatriz começou a cair a pique e não passou despercebido à família. “A minha mãe, que costumava ir comigo às aulas de natação, notou que eu estava cada vez mais magra. Levou-me à pediatra, que aconselhou os meus pais a vigiar a situação.” Nessa altura, pesava 46 kg e já recorria a todo o tipo de estratégia para evitar comer. “De manhã, escondia a comida nos bolsos ou na mochila e depois deitava fora. Quando almoçava na escola, dizia sempre que não gostava da comida e não comia. O pior era ao jantar. Chorava quase todos os dias porque achava que a quantidade de comida que os meus pais me queriam obrigar a comer era sempre exagerada.”

 

“Sentia-me confortável com o meu peso”

Como continuava a perder peso, os pais procuraram ajuda e foi referenciada para psiquiatria. O diagnóstico de anorexia nervosa caiu que nem uma bomba no seio da família. “Nunca acreditei que tinha esse problema. Sentia-me bem, confortável com o meu peso. Achava que não precisava de comer. Às vezes, até sentia fome, mas não a ponto de querer comer. Ainda hoje é assim. E é isso que me impede de recuperar”, reconhece Ana Beatriz.

A fase mais negra foi em 2019, quando foi internada. Pesava 43 kg. Passou seis longas semanas no Hospital de Magalhães Lemos, no Porto. “O peso aumentou, mas a cabeça não acompanhou. Comi porque queria sair de lá, embora todos fossem cinco estelas. Saí com 48 kg. Quando regressei a casa, voltou tudo ao mesmo.” O confinamento de 2020 foi vivido sob pressão máxima. E este também potencia a ansiedade. Mas está alerta, consciente dos riscos. Quer recuperar a saúde. A vida. “Houve uma fase em que não gostava nada de mim. Estou a descobrir a minha força.”

Joana Saraiva, pedopsiquiatra do Centro Hospitalar e Universitário do Porto, confirma o impacto da pandemia em quem sofre de perturbações do comportamento alimentar: “Nestes últimos meses, o número de pedidos de novas consultas disparou e muitas jovens que já se encontravam clinicamente estáveis viram o seu estado agravado, até porque houve uma dificuldade acrescida em dar resposta em termos de consulta presencial/internamentos”. Mais horas em casa, mais desgaste, mais conflitos, também devido a questões alimentares.

“Mesmo em adolescentes previamente saudáveis, o confinamento que ocorreu durante a pandemia levou, como é obvio, a um maior isolamento, impediu a frequência da escola e de atividades extracurriculares e fez com que muitos indivíduos ficassem mais centrados na alimentação.” Acresce o quadro de maior ansiedade que contribui para a “desregulação emocional que, muitas vezes, acaba por ter ligação direta com a ingestão alimentar”, explica a psiquiatra da infância.

 

“Ainda agora ando a tratar o que estraguei”

Aos 32 anos, Vânia Garcia aprendeu a lidar com a doença cujos primeiros sintomas surgiram aos 16. Na altura, na pequena localidade do concelho de Tomar onde ainda vive, ninguém sabia o que era anorexia. Mas quando deixou de comer e perdeu 20 kg em poucos meses – com 1,73 m, atingiu os 50 kg -, a mãe levou-a à médica de família, que colocou um nome no sofrimento da adolescente. Como a maioria dos que padecem dessa perturbação, entrou em negação. Não aceitava que estava magra, não percebia por que a queriam forçar a alimentar-se. “Nessa fase, tornei-me uma mentirosa profissional para evitar comer.”

Foram quatro anos a debater-se com o peso, que deixaram mazelas. “Estraguei muito o meu corpo. Tenho um estômago frágil, uma hérnia do hiato, os dentes e o cabelo ficaram fracos. Ainda agora ando a tratar o que estraguei. As consequências ficam para a vida.” Quando olha para trás, compreende que traços de personalidade, como o perfeccionismo e a falta de autoestima, contribuíram para o quadro clínico. “Procurava um ideal. Tinha pavor de engordar. Queria gostar mais de mim, mas nunca me sentia bem.”

Por volta dos 20 anos, começou a gerir melhor a relação com a comida, complicada desde menina. Pensou que estava curada até que, oito anos depois, a crise emocional provocada por uma separação fê-la regressar à distorcida zona de conforto da anorexia. Deixou de comer e o peso afundou. Andou assim uns meses, recuperou sozinha – nunca teve, aliás, ajuda especializada – até 2019. Um pico de stresse no trabalho, nova recaída. “As pessoas voltaram a dizer que eu estava muito magra, mas eu nunca me sinto magra”, admite. No ano passado, durante o confinamento, engordou e o pânico regressou. “Comecei a correr para não engordar. Passei a usar essa estratégia. Tenho medo de voltar a descontrolar-me, tenho sempre medo de engordar. Não acredito que a anorexia se cure, lida-se com ela, aprendemos estratégias. Mas lutamos sempre com a visão distorcida de nós próprios.”

 

As estatísticas mostram que metade dos doentes recupera totalmente, sustenta Joana Saraiva, acrescentando que “à medida que o tempo vai passando, a probabilidade de recaída diminui”. No entanto, períodos de grandes mudanças e/ou exigências emocionais poderão trazer de novo alguns sintomas. “Há que estar atento e atuar de imediato.”

 

“Não é uma escolha, é uma doença”

Quando milhares de famílias estão forçadas a estar juntas, 24 sobre 24 horas, o potencial de conflito agudiza-se. A adolescência é a fase de maior risco. “É quando se constrói a autonomia, definem-se limites, começa a experienciar-se o corpo e a fazer-se comparações”, refere Cristina Pontes. Esse é processo de desenvolvimento normal. A anorexia nervosa surge geralmente no fim de infância e na adolescência. “Não é uma escolha, é uma doença. Ninguém escolhe emagrecer até aos 30 kg”, sublinha a psicóloga, que trabalha há 13 anos com estes doentes no Centro Hospital e Universitário de São João, Porto.

 

Sendo uma patologia que distorce a perceção corporal e corrompe a cognição e sentimentos, a adesão ao tratamento é o maior desafio. Há um desfasamento entre o que a razão sussurra e o que as emoções gritam. Nos casos mais extremos, o internamento pode ser a diferença entre a vida e a morte. Catarina Reis esteve dois meses hospitalizada no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Tinha 16 anos e debatia-se com a anorexia desde os 14. Chegou a pesar 38 kg. “Eu não aceitava que tinha de comer. Os meus pais não entendiam que eu recusasse a comida. As quezílias eram constantes. Senti que o Mundo estava contra mim”, recorda.

 

Curada desde os 20 anos e mãe de quatro filhos, Catarina Reis diz: “A anorexia é como uma dependência. Não comer era o meu vício”
(Foto: Gerardo Santos/Global Imagens)

No hospital, aprendeu a negociar. Um quilo para falar ao telefone, mais um quilo para ter visitas – tudo plasmado num acordo que tinha de cumprir para ter alta. “Comi para sair de lá o mais rapidamente que consegui.” De regresso a casa, volta o frio na barriga na hora da balança. Valia tudo para não aumentar de peso. “Houve uma altura que tinha insónias e, durante a noite, via televisão e andava na sala de um lado para o outro para queimar calorias.” Resume: “A anorexia é como uma dependência. Não comer era o meu vício”.

Foram mais alguns anos assim, até que, aos 20 anos, um apelo desesperado do namorado, agora marido e pai dos quatro filhos, finalmente fez soar o clique da mudança. Desde essa idade que está curada. Criou com Vânia, “a irmã na anorexia”, o blogue “Duas bloggers, duas histórias, uma doença”, para dar a conhecer que é possível vencer a patologia.

Mãe e ex-anorética, conhece a necessidade de os pais estarem atentos, mas sem criar demasiada pressão. “Sentarem-se à mesa, de olhos fixos, não ajuda quem está a fazer um esforço para comer.” Fernando Correia, pai de Ana Beatriz, sentiu na pele o dilema entre querer alimentar a debilitada filha – “todos os dias tinha medo de receber um telefonema com más notícias…” – e confiar no processo terapêutico. “Agora, evito falar do assunto para não a pressionar, mas estou presente para o que ela precisa”, conta este pai que até se contorce em posturas de ioga para acompanhar a filha.

 

Negociar uma bolacha ou meia batata

Quando um filho adoece, toda a família sofre. No caso da anorexia, há um enorme capital de culpabilização por parte dos pais que é fundamental reverter. José Camolas, nutricionista do Santa Maria (Lisboa), fala da dificuldade de conciliar as expectativas dos progenitores (que avaliam como insuficiente a quantidade de comida prescrita) e aquilo que os doentes são realmente capazes de ingerir. “Estamos a falar de negociar pequenas quantidades. Se não come arroz nem batata, a proposta pode ser uma colher de sopa de arroz ou metade de uma batata. Se só bebe uma chávena de leite, acrescentar uma bolacha ou um quarto de pão. A reposição alimentar tem de ser muito gradual para permitir a adaptação física (muitos doentes ficam indispostos quando voltam a comer mais) e evitar a rejeição emocional”, exemplifica. “Por vezes, é preciso pedir aos pais que saiam da consulta, o que é terrível para eles. Mas o trabalho do nutricionista passa por criar uma relação de confiança com o paciente.” Com a pandemia a desregular os hábitos alimentares (“houve uma verdadeira epidemia de produção de pão e bolos em casa”) e a limitar os contactos com os pacientes, há mais recaídas.

 

A anorexia assume uma expressão clínica mais dramática, mas há outras perturbações do comportamento alimentar. A bulimia, por exemplo, é mais prevalente (atinge 1 a 1,5% da população, maioritariamente mulheres), mas passa mais despercebida porque os pacientes geralmente mantêm um peso normal. “É muitas vezes vivida em segredo, os doentes mantêm a doença em privado, a família e os amigos não reconhecem o problema. Às vezes, sofrem sozinhos durante anos. Consideram que conseguem resolver sozinhos o problema ou sentem vergonha em recorrer ao psiquiatra”, destaca Isabel Brandão.

A princesa Diana debateu-se anos com a bulimia. Na última temporada da série “The Crown” são evidentes os episódios de ingestão descontrolada seguida da indução de vómitos. “Trata-se de uma condição de vida que traz muito sofrimento psicológico. São doentes em que há maior prevalência de depressão, assim como de suicídio”, refere a psiquiatra do S. João.

Na solidão de um sofrimento tão incompreensível para o outro, estas doenças transformam-se quase na “melhor amiga”, diz Cristina Pontes. O resgate dessa perigosa zona de conforto é o caminho para a cura.

 

Doenças e comportamento alimentar

Anorexia nervosa

• Caracteriza-se por pavor de engordar e uma distorção da imagem corporal, que leva a que, mesmo estando com peso muito baixo, estes doentes não se sintam magros e recusem, por isso, alimentar-se
• Atinge sobretudo raparigas dos 13 aos 15 anos

Fatores de risco: características individuais (genética, personalidade) e familiares e fatores socioculturais (ideal de magreza, pressão dos pares, dos media)

Sinais de alerta: acentuada perda de peso, recusa de comer, estratégias para evitar as refeições e dissimular a perda de peso

Cura: 50% dos casos. As hipóteses de recaídas decrescem com o tempo, mas fases de maior stresse podem espoletar episódios

 

Bulimia nervosa

• Ingestão alimentar compulsiva seguida de comportamentos compensatórios, como longo jejum, excesso de exercício físico, vómitos ou laxantes. Subjaz o medo de engordar, mas ao contrário da anorexia, não se caracteriza por magreza patológica
• Afeta mais mulheres, a partir da adolescência e pode manter-se na vida adulta

Fatores de risco: aumento de peso na infância, insatisfação com o corpo na adolescência, doença psiquiátrica dos pais

Sinais de alerta: como conseguem manter um peso normal, estes doentes passam mais despercebidos. É importante vigiar oscilações de peso e eventuais comportamentos compensatórios.  "

by: Notícias Magazine

 

 

Chegar á idade adulta e ter um passado com anorexia...

Quem teve\tem anorexia, vai entender o que digo quando falo que me irrita o olhar chocado das pessoas quando descobrem que sofri\sofro de anorexia. Nem eu mesma sei explicar certas coisas e tive\tenho a doença. A verdade é que, há 15 anos atrás, a informação sobre a anorexia era pouca (eu nem sabia que existia tal coisa até ao diagnóstico -confesso) e hoje é um assunto que vem por modas, ou seja, parte das pessoas que divulgam informação sobre isso, é somente para dar conhecimento de que famosa\o "X" tem um distúrbio alimentar. 

Quando ouço determinadas baboseiras, revelo o meu passado. Com vergonha e receio, mas revelo! Creio até que foi para isso que nós criamos este blog - para dar mais informação na primeira pessoa. 

Felizmente, ainda há quem não se esqueça de que é real, é uma doença e é uma incógnita para muitos, ainda. Os mais desinformados, continuam a achar que é uma "mania das dietas" e que só tem quem quer e quem não tem cabeça (ouvi isto tantas vezes!). 

Actualmente tenho 32 anos. Tive uma anorexia na adolescência. Tive 2 recaídas leves. Consegui ser mais forte do que a doença. Achei que estava curada até começar a ter uma recaída, aos 29 anos (creio que foi nessa idade) e entrar em outra o ano passado. Achava que tinha tido anorexia e que ela ficava no passado. Nunca me preocupei se iria recair porque achava que, uma vez curada, esse fantasma não me iria assombrar mais... Enganei-me! 

Hoje, olho para o passado e vejo-a como uma pedra no caminho que me é atirada de vez em quando. Cabe a mim voltar a tirá-la do meu caminho e ter força para tal. Até porque a principal medicação contra a malvada, é a nossa força de vontade. Acabamos por descobrir artimanhas para a enganar. Eu uso o desporto. 

Com isto da pandemia a minha alimentação é horrivel, mas compenso com corridas. 

E pronto... É assim que tenho vivido com o meu fantasma. Mandando-o dar uma curva quando se lembra de aparecer! 

 

Um Ano Feliz,

Vânia

Testemunho

Fui contatada recentemente por uma rapariga que está a lutar com esta doença. Referiu que gostaria de contar a história dela e eu sugeri que me enviasse o texto para o poder publicar. Recebi um documento pouco tempo depois e quando o li senti um murro no estomâgo. Quando penso que já vi, ouvi ou li tudo sobre esta doença surgem histórias destas. 

Espero do fundo do coração que consiga dar a volta porque merece uma vida melhor.

 

"Em uma das noites a qual eu taquei o foda-se novamente, o intuito principa era rir e me divertir, porém quando me olhei no espelho, que por sinal haviam dois, e isso foi mais aterrorizante ainda, pois naquele momento, eu me vi igual a um esqueleto. Eu sabia  que se continuasse assim, iria acabar tomando soro no hospital. Apesar da situação a qual eu me encontrava, eu sabia que a única ‘’coisa’’ que iria aliviar a dor súbita gritando de fome, era a cocaína. As pessoas sempre falam, que há escolha, mas acreditem ou não, naquele momento, a cocaína aliviou minha dor e abriu portais da minha mente para que eu mudasse essa situação. Naquela noite, em um lugar reservado, eu utilizei LSD e após o efeito ter passado, utilizei cocaína para aliviar a dor insuportável que estava sentindo. Durante  a ‘’brisa’’ do LSD, eu me vi de uma forma aterrorizante, estava mais magra que o normal, e foi horrível. Lembrei do churrasco que tinha sido convidada, e ao sentir o cheiro da minha comida favorita, senti ânsia e logo fui embora, pois não suportava ver comida e não conseguir comer. Me olho no espelho, vejo que estou doente, e minha mente insiste em me falar: - Continua assim que você está linda, você pode mais!

É horrível ser profissional da saúde, saber de todos os transtornos, e viver com vários... Mas saber que você não tem controle sobre eles é pior ainda. Cada dia é uma luta, estou utilizando Maconha como amuleta, pois ela abre meu apetite, e isso é péssimo. Porém nunca deixei de fazer meus compromisso por conta disso, diga-se de passagem, já trabalhei algumas vezes sem comer e quase desmaiei na rua. Continuo me sabotado todos os dias, dizendo que consigo sozinha, mas eu sei que não, é necessário buscar ajuda, compartilhar e conhecer outras pessoas na mesma situação. Não digo que me curei da depressão, vivo em constante disciplencia com ela, na beira da loucura com anorexia, relutando com maconha e me auto sabotando cheirando ritalina. E assim vivo um dia de cada vez, alguns caóticos demais, onde me perco em minha existência, refletindo quem sou e onde quero chegar, e dias felizes os quais vibro com maior orgulho, quando consigo comer saudavelmente."

Recaidas...

Olá gente boa. 

Andamos desaparecidas aqui do blog - eu,Vânia, ando desaparecida dos blogs em geral- mas senti necessidade de vir escrever por aqui. Tinha sentido. Precisava.

Bem, sempre tive medo de me deixar cair outra vez mas, pensava eu, não seria fácil. Achamos que , se superamos uma vez e que, se tivemos força para lutar contra ela, não nos deixaremos cair (afinal de contas a maldita faz parte do passado -pensamos!). Eu deixei. Quase caí fundo... Foi uma mistura de stress no trabalho, muitas horas laborais e o término de uma relação. O cansaço psicológico achou que estava na altura de aparecer e a sacana também. Não fui á médica. Recusei-me a aceitar que estava outra vez a entrar de onde tanto me custou a sair. Emagreci novamente bastante. E dei a desculpa a toda a gente que teria sido efeitos de uma colonoscopia. Que o meu organismo não gostou da preparação do exame nem do pós (o que não deixou de ser verdade pois andei uma semana a comer muito mal). 

Passei a vestir o 36. Coisa que nem sabia o que era há 15 anos. Tive de comprar calças. Até as minhas leggins me ficavam largas. 

Cheguei aos 54\55kgs... Não sei ao certo pois desisti de me pesar.

Não comia. Não conseguia! Não tinha apetite. Não tinha vontade. Não me apetecia sequer. Não me via magra mesmo ouvindo isso de toda a gente umas 20 vezes ao dia. Por alguma razão eu NUNCA me vejo magra. Não vos sei explicar ao certo, olho-me ao espelho e não vejo magreza, esteja com o peso que estiver. 

Felizmente, não precisei de cair mais. Ouvir todos os dias o mesmo mexeu-me com a cabeça. Não fui sequer a uma consulta! Andei a fugir da médica 2 meses até ganhar peso...

Sabem o que me motivou a voltar a comer? Desporto. Comecei a correr, a ir ao ginásio, voltei á piscina... e a fome voltou! 

Mais uma vez, comprovei que esta filha da mãe aparece quando a cabeça fraqueja e só vai quando a cabeça se lembra de ganhar força. Temos de ser nós. Por nós! 

 

Marcas da anorexia - Catarina

Venci a anorexia mas ela não se foi sem deixar marcas profundas em mim. Quem para mim olha não as vê mas eu sei que estão lá. Durante anos tive dores horríveis nos ossos, era incapaz de tomar banho na água do mar, o frio trazia dores agonizantes. Tudo porque fiquei com muita falta de cálcio, tive mesmo principio de osteoporose. Com o tempo e com uma alimentação equilibrada os osso conseguiram recuperar e hoje estão a em porcento.

Também os dentes foram muitíssimo afectados. A falta de cálcio e o facto de mascar pastilha de manhã  à noite  ( li nalgum lado que mastigar pastinha queimava calorias e por isso fazia-lo o dia todo) trouxeram-me muitos dissabores. Muitas foram as noites que passem em claro a chorar por não aguentar mais as dores que sentia. Muitas foram as vezes em que me apeteceu chegar ao dentista e pedir para que me arrancasse os dentes todos, se não os tivesse não me poderiam fazer sofrer. Foram precisos alguns anos e imenso dinheiro para deixar de ter problemas. Lembro-me do desespero do dentista que me dizia que eles se deterioravam mais depressa do que ele os conseguia arranjar nas consultas semanais. Com o passar do tempo o cálcio lá foi reposto e hoje tenho os dentes um pouco mais fortes.

O meu cabelo e unhas também sofreram com a doença. O cabelo ficou tão fino e baço que tive que o cortar curto no auge da doença. As unhas tornaram-se fracas e quebradiças. Hoje em dia olho para o meu cabelo e para as minha unhas e sei que não são nem de perto nem de longe o que já foram. Eu tinha tanto cabelo mas tanto cabelo que nem quando queria fazer um rabo de cavalo mal conseguis dar duas voltas no elástico. Hoje em dia posso dar quatro voltas e mesmo assim o elástico fica largo. As unhas eram forte e rijas quando hoje partem-se imenso. Já se passaram tantos anos que já não tenho fé nenhuma que algum dia voltem a ser o que eram.

A principal mazela com que fiquei foi mesmo no sistema digestivo. Sempre fui bastante sensível de estomago mas depois da doença fiquei pior. Muitas são as vezes em que passo mal e acabo com gastroenterites quando todas as pessoas que comeram o mesmo estão de perfeita saúde. Fujo dos fritos e picantes mas mesmo assim é uma miséria.

Agradeço todos os dias pela qualidade de vida que tenho porque, no fundo, sei que até não me posso queixar, poderia ter ficado com sequelas muito piores.

Vocês perguntam. Nós respondemos # 7

A nossa querida Mula colocou-nos uma questão que nos fez pensar um pouco. É uma pergunta complexa e que certamente terá uma abordagem diferente de pessoa para pessoa mas aqui ficam as nossas.

 

P: Anorexia resulta, suponho eu, de uma força de vontade levada ao extremo, mas no fundo é uma dieta - ou ausência dela - que inicialmente - imagino eu - origina muita fome, até o corpo se habituar. Agora que vocês estão livres dessa doença, conseguiram transportar essa força de vontade para a vossa vida actual, para fazerem outro tipo de coisas? Ou simplesmente essa energia não é canalizada para outro lado?

 

Catarina: De facto existe uma força imensa que nos faz conseguir deixar de comer e viver quase em jejum. Uma pessoa normal se estiver um dia sem comer fica fraca enquanto que uma anoréctica consegue levar uma vida praticamente normal mesmo estando sem comer à dias. No meu caso essa força de vontade foi canalizada primeiro para a recuperação. Dizia a mim mesma que se tinha força de vontade para estar dias sem comer também haveria de ter força para voltar a comer. Hoje em dia continuo a agarrar-me a essa força e utilizo-a em muitas situações da minha. Convenço-me que se fui capaz de passar pelo que passei não há nada que não consiga fazer.

 

Vânia: Sabes, Mula, nós nem nos apercebemos do poder que a nossa mente tem... eu não tinha fome. Não sentia fome embora o meu estômago fizesse aqueles ruídos desconfortáveis. Só depois de conseguir voltar a comer e de o meu estômago voltar a receber alimentos é que me apercebi do que tinha acontecido. Penso que canalizei essa ''energia'' a cozinhar (ironia do destino). Comecei a gostar de estar na cozinha e de experimentar receitas, etc. E também comecei a pensar que poderia ajudar outras pessoas com a mesma doença. Daí termos criado o blog. Essa ''energia'' está aqui. :-)

Desafio Alimentação

 

Fomos desafiadas pela nossa querida Mula (aquela blogger super talentosa que fez o nosso lindo header) para um desafio sobre a alimentação. Vamos então responder e agradecer à nossa menina pelo convite.

 

1. O que costumas comer no dia a dia?

Vânia: Agora? Como de tudo. A partir dos 20 anos comecei a apanhar o gosto pela comida.Como tudo o que faz mal... Quem me conhece diz que comigo é 8 ou 80.

Catarina: Adoro pão, fruta, sopa e doces. Não consigo resistir a chocolates, bolos, gomas…

 

2. Preferes doce ou salgado?

Vânia: Doces. Ainda não deu para reparar?

Catarina: Gosto muito de salgados mas sou viciada em doces.

 

3. E quanto a dieta, preocupas-te com isso ou comes sem pensar no amanhã?

Vânia: Eu acho que tenho fases. Há alturas em que como de tudo e que uso a desculpa do "já estive tanto tempo a privar-me de comida que agora posso" e depois o peso na consciência fica lá no cérebrozinho a matutar. Depois penso em fazer exercício e começar uma alimentação mais saudável... Mas penso que isso aconteça com todas as mulher. Existe sempre uma preocupação com o corpo, a imagem.

Catarina: Felizmente tenho um metabolismo que me permite comer de tudo e manter o peso mas mesmo assim tento comer moderadamente. Tento fazer uma alimentação saudável não tanto pelo peso mas sim pela saúde.

 

4. Qual é a tua comida e sobremesa favorita?

Vânia: Comida favorita? Bacalhau com natas e Francesinhas. (e massas!) Sobremesa? Não consigo escolher uma. Sou demasiado gulosa para colocar sobremesas de parte.  Mas já disse que gosto de chocolate, certo?!

Catarina: Comida preferida? Adoro pizza e massas. Lasanha, carbonara… Em relação a sobremesas acho que há poucas que não goste mas não resisto a um gelado.

 

5. O que é que odeias comer, mas comes porque precisas?

Vânia: Peixe. Odeio comer peixe (excepto bacalhau, atum)

Catarina: Odeio polvo, borrego, cabrito e marisco mas odeio tanto que não como mesmo.

 

6. Quanto pesas? Querias pesar mais ou menos? Estás satisfeita com o teu peso?

Vânia: Confesso que não faço ideia de qual o meu peso. Desde a anorexia que evito pesar-me. Sei que há um mês estava com 64kgs porque fui a uma consulta de rotina.  Mas gostava de ter menos os 4 kgs.

Catarina: A ultima vez que me pesei tinha 52kg mas actualmente devo pesar um pouco menos. Por norma a minha balança são os amigos e familiares que me alertam logo para o facto de estar mais magra. A verdade é que o numero na balança é só mesmo um numero o que interessa é estejamos bem connosco próprias.

 

7. Qual a fruta favorita?

Vânia: Melancia. Dêem-me melancias!

Catarina: Laranjas.

 

8. Comes ou gostas de verduras e legumes?

Vânia: Não sou grande adepta mas como. Também depende da forma como são confeccionados. Tento sempre incluir verduras e legumes nos cozinhados todos (até aqueles menos saudáveis).

Catarina: Gosto muito de verduras e legumes. Gosto de os comer cozidos, salteados, em sopa ou saladas.

 

9. Quantas refeições fazes diariamente?

Vânia: Nisso eu sou uma nulidade. Como quando como. Não tenho nenhum hábito de alimentação.

Catarina: Demasiadas ou quase nenhumas. Quando ando mais descontraída passo o dia a comer. Não sou pessoa de comer muito a uma refeição mas vou petiscando muito ao longo do dia. Quando ando mais apertada de trabalho ou preocupada o stress toma conta de mim. As horas passam a voar e quando dou conta percebo que já são horas de almoço e eu ainda não comi nada.

 

10. O que gostarias de comer, mas o teu consciente não permite?

Vânia: Pizzas,Hambúrguers, montes de Francesinhas, batatas fritas, e todas essas coisas que fazem mal.

Catarina: Pizzas e pão de alho. Se me deixassem não comia mais nada.

 

Muito obrigada à Mula pelo desafio.E por toda a ajuda e apoio...

Nós gostariamos de desafiar todos os que lêem o nosso blog a responder a isto. 

Como identificar e lidar com a anorexia

Todos sabemos (se não,devíamos) que os distúrbios alimentares são problemas sérios e que afectam as mais variadas pessoas, das mais variadas idades e sexos. O que muitos de nós desconhece é que afecta muito mais pessoas do que se pensa e que ainda há muita gente a morrer desta doença. Sabiam que dos 15 aos 24 anos a anorexia mata 12 vezes mais do que qualquer outra doença? E que, em 20% dos casos de anorécticos existe uma morte prematura?

Muitas das vezes pensamos que, pelo facto de não ser algo que nos calhe a nós, devemos manter-nos ignorantes relativamente ao assunto. Mas, garantimos-vos de que pode acontecer em qualquer família. Aconteceu nas nossas sem que nenhum deles esperasse! Pode acontecer com alguém da sua família, com algum dos seus amigos ou conhecidos. Qual a melhor forma então de ajudar? Observando e cuidando. Como? É isso que iremos mostrar. Claro que CADA CASO É UM CASO. E os nossos foram tão distintos mas tão iguais que vamos dar-vos algumas dicas que achamos mais importantes.

                          (imagem retirada daqui)

 

Como já sabem, a anorexia é uma restrição alimentar que vem de uma visão distorcida da realidade sobre o seu próprio corpo e um medo constante e intenso de engordar. Muitas vezes é fruto de problemas sociais e\ou pessoais e pode matar ou marcar a pessoa para a vida. Então, vamos ajudar?

 

O passo principal é OBSERVAR. Uma pessoa anoréctica não irá chegar ao pé de si dizendo estar com um problema de anorexia. Você, provavelmente, conseguirá ver, observando atentamente. (Se não conseguir, não se culpe pois uma pessoa anoréctica torna-se profissional na arte de ocultar e mentir - falamos por experiência!)

Observe o comportamento alimentar, a obsessão com o corpo, as diminuições de peso, a aparência física e as mais variadas desculpas para não comer. 

A pessoa anoréctica tem uma relação com a comida que pode levar a mastigar excessivamente. medir alimentos, contar calorias, pesquisar sobre os produtos, etc. Terá também uma obsessão com o seu corpo que irá fazer com que se veja gorda mesmo não estando. Irá pesar-se repetidas vezes e demorará tempos infinitos na casa de banho (outras têm aversão ao espelho e á balança). Estas pessoas baixam drasticamente de peso e camuflam isso com roupas largas que irá fazer com que passe um pouco despercebido a quem as rodeia. Utilizarão desculpas para não comer ou comer pouco ("Estou doente", "Não tenho fome", "Não gosto da comida",etc) mesmo que estejam em algum evento social. O facto de comerem irá proporcionar-lhes culpa e vergonha. 

Como tal, a pessoa anoréctica irá andar fraca, com tonturas, unhas e cabelos quebradiços, pele ressecada e pálida,  olhos amarelados, etc. Em termos emocionais também irá ver mudanças pois, devido à falta de nutrientes, o seu corpo estará desregulado e estão mais sujeitas a depressões e ansiedade. Irá notar a pessoa com mais irritabilidade, indiferença,dificuldade em concentrar, por exemplo. 

 

A pessoa anoréctica é alguém com baixa auto-estima, pelo que ouvirá muitas vezes dizer que não vale nada, que não faz nada bem, que não é suficientemente boa. Como tal, existe também um afastamento dos amigos, familiares e até das suas actividades habituais. 

 

          (imagem retirada daqui)

 

COMO AJUDAR?

Acima de tudo, NUNCA critique, NUNCA culpe, não grite, não faça ameaças, não desmoralize. Opte pelo positivismo, por comemorar cada etapa bem sucedida, por perguntar à pessoa pelos seus sentimentos, por mostrar que se importa e que gosta dela

Essas coisas de "ah. Vais morrer se não te cuidares" não resulta e a pessoa ficará mais stressada. Não o façam! Mostrem-lhe carinho, amor, compreensão

 

Muitas vezes, há quem diga que, se fossemos filhas delas, tinham tido pulso firme ou tal nunca teria acontecido (quantas vezes já o ouvimos?). Minha gente, garantimos-vos de que isso é TRETA! O chamado "pulso firme" não ajuda, apenas provoca mais raiva e revolta. E o "nunca teria acontecido" é pura ignorância relativamente à doença. Abram as mentes e pensem que pode acontecer até consigo, com a sua filha, com a sua irmã (estamos a falar no feminino mas existe também o lado masculino). 

 

Ajudem. Comecem por se informarem.

 

Beijinhos de duas pessoas que não queriam ter tido "pulsos firmes" nas suas doenças. 

 

Vocês perguntam. Nós respondemos # 6

Temos andado um pouco desaparecidas mas tudo por bons motivos. No entanto ainda existem perguntas por responder e não vamos descansar enquanto não as respondermos a todas.

Nesta rubrica vamos responder à pergunta que nos foi colocada pela Filipa Iria.

 

P: Eu gostava de saber como é que lidam nos dias de hoje com a alimentação depois de terem ultrapassado uma doença como a anorexia (se é que se ultrapassa completamente..) 

 

Catarina: No meu caso a normalização alimentar não foi assim muito rápida. Durante anos apenas comi peixe e carnes brancas, legumes, saladas e fruta. Evitava doces ao máximo embora como sou gulosa acabava por cair na tentação algumas vezes. Não comia enchidos, grão, feijão, carnes vermelhas, fritos, guisados,etc. Com o passar dos anos foi começando a relaxar a nível de alimentação e comecei a experimentar coisas novas. Hoje em dia como praticamente tudo, digo praticamente tudo porque existem coisas que de facto não gosto como é o caso do borrego e cabrito. O importante é que provo tudo e depois decido se gosto ou não afinal nem todos podemos gostar de tudo.

Vânia: Eu costumo dizer que fui do 8 ao 80! Até 2010, mais ou menos, a minha alimentação era de quando o rei fazia anos... quando voltei a ingerir comida -e não maçãs- comia de vez em quando, até porque fiquei com problemas de estômago e por isso tive de fazer tratamentos e tenho uma medicação para a vida. Só a partir de 2010, estando já medicada e normalizada, comecei a ganhar o gosto pela cozinha e, aos poucos, pela comida (até porque o meu estômago já me deixava comer sem deitar tudo fora). Comecei a gostar de coisas das quais nunca tinha gostado!  Comecei a comer de tudo. Os meus amigos costumam chamar-me a atenção pelas porcarias que como (chocolates, batatas fritas, doces, etc) e é o que costumo dizer ''privei-me tanto tempo da comida que agora não me privo de nada''.  Sim, eu sei que também não se faz!

O blog também foi à Sic... com a Catarina!

 Há umas semanas fomos contactadas pela Patrícia, da Sic, para participarmos num programa chamado "A Vida nas Cartas - O Dilema" com as nossas histórias e o nosso pequeno projecto. Porém, sendo eu de longe, não me pude deslocar até perto da nossa Catarina e disse-lhe que confiava nela para contar a sua história e falar sobre o nosso blog. Sem dúvida alguma que a nossa menina é uma óptima oradora e não poderia representar melhor este cantinho! Eu mesma não faria melhor nem sequer igual... (A sério, ela esteve mesmo bem, não esteve?)

O tempo de reportagem é curtinho, a sua história foi resumida ao máximo e conseguiu até falar sobre o " Duas Bloggers, Duas Histórias, Uma Doença : A Anorexia." Como foi falado pouquinho do seu trajecto, se quiserem conhecer melhor a história da nossa menina, basta carregarem em cima do nome da Catarina lá em cima. Assim conseguirão acompanhar toda a sua luta contra esta doença. 

Sem título (2).jpg

 Euzinha, que sou uma medricas nestas coisas, só tenho de agradecer a esta irmã que a doença me deu, por dar a sua voz, a cara (e eu sei que ela estava nervosa!), tempo e dedicação e ainda por partilhar a sua história connosco. Sinto-me extremamente orgulhosa desta mulher guerreira que, mesmo com tão pouco tempo pessoal disponível, ainda o perde a ajudar. E tenho de lhe agradecer por toda a dedicação a este projecto e por todo o carinho... Obrigada minha irmã!  Por teres até a coragem que eu não tenho...  E sei que desta vez te custou mais um bocadinho mas ficaste tão bem e representaste-nos tão bem!

 

Aproveito para agradecer todo o apoio que temos tido e todas as ajudas que já nos deram. Obviamente que não é só um projecto nosso, é de todos! Agradeço imenso. 

 

V*

 

O que é a anorexia nervosa?

Como já dissemos anteriormente, a anorexia nervosa não é uma decisão de vida. Nós não acordámos um dia, pela manhãzinha, e pensámos "Hoje sabia-me mesmo bem uma anorexia nervosa!". Não! Não foi uma escolha. Embora exista uma espécie de "decisão" em começar dietas, abstenções e coisas do género, é algo que provém de uma mente que está com um problema e que necessita, urgentemente, de ajuda.

É isso que queremos desmistificar aqui! Ao longo da vida, já fomos culpabilizadas como se tivesse sido algo pelo qual escolhemos passar. Como se fosse engraçado olharmos-nos no espelho e odiarmos o que vemos. Como se nós tivéssemos achado piada à azafama de médicos e hospitais, agulhas, vitaminas, etc. As coisas não são bem assim... 

 

E então, o que é mesmo a anorexia nervosa?

  • anorexia de origem grega = (a\an-negação) e (orégo-apetecer), negação do desejo por comer,do apetite. 

A anorexia nervosa é uma doença. Ponto! É uma perturbação no nosso comportamento alimentar que afecta, na sua grande maioria, mulheres jovens que tentam ter um controlo extremo no seu peso corporal, através de uma enorme restrição na alimentação. 

 Muitas das  vezes, a anorexia provém do facto das mulheres se sentirem infelizes com o seu  corpo mas, não advém somente desse aspecto. A infelicidade, a nível social, poderá igualmente desencadear a doença. A rejeição da sociedade, dos seus pares, a difamação, bullying, qualquer tipo de ofensas e\ou agressões, poderão levar ao desencadeamento da doença... (E, deixem-nos que vos pergunte: a culpa continua a ser da doente ?) 

 As angustias, os relacionamentos sociais falhos, a depressão, problemas familiares, a visão utópica de um "corpo perfeito" poderão igualmente levar a uma baixa auto-estima e, consequentemente, à doença. 

Uma vitima de anorexia pensará que, se for magra, os seus problemas serão dissipados e serão mais felizes. É uma luta desenfreada pela tentativa de alcançar aquele que julgamos ser o "corpo ideal". Mas, o problema é que, embora emagrecendo, a pessoa doente, não se verá magra e continuará infeliz. 

 

E a família? 

Vamos ser honestos, algumas das pessoas que percebe que a doença é isso mesmo (uma doença!) acaba por culpabilizar a família. Vamos então explicar-vos o nosso lado... 

Nós, doentes, tornamos-nos peritas na mentira e omissão! Conseguimos das mais variadas formas contornar diversas situações para que não percebam o que se está a passar. E agora é a parte em que nos dizem "Ah. Mas então vocês sabiam o que estavam a fazer". Sim e não! Pensávamos que o que estávamos a fazer nos iria ajudar mas que a família jamais iria compreender e iria tentar impedir isso de alguma forma. Por isso, por muito que nem tenhamos jeito para mentir, a mentira torna-se a nossa melhor arte. 

Além disso, a família é uma das partes mais importantes para a nossa recuperação. A grande maioria das vezes, são mesmo a salvação!

 

 

(imagem retirada de A anorexia tirou-lhe dez centímetros de altura. E muito mais.-Expresso)

 

Segundo dados da Direcção-Geral de Saúde (DGS),  os hospitais do nosso país contabilizaram 727 internamentos entre os anos 2010 e 2014, sendo, maioritariamente, pessoas do sexo feminino entre os 18 e os 39 anos de idade, seguidas de adolescentes até aos 17 anos. No que diz respeito ao sexo masculino, atinge, em maior número, jovens até aos 17 anos de idade.

 

 

E isto, é um pouco do que é a norexia nervosa. Não somos especialistas para falar a nivel médico, mas explicamos por palavras nossas pelo que passámos. Esperamos que compreendam e que, se tiverem algumas dúvidas, nos perguntem pois estamos cá para isso mesmo, para ajudar.

A alta (Catarina)

A alta hospitalar chegou e embora estivesse ansiosa para sair sentia-me assustada ao mesmo tempo. As pessoas esperavam tanto de mim. Pensavam que eu iria sair milagrosamente curada, com um peso normal e uma óptima relação com a comida. No entanto isso não poderia estar mais longe da realidade. Continuava a comer pouco, a ser esquisita no que comia e a demorar uma eternidade a comer. Em breve começaram as pressões para comer mais e para comer de tudo. Não compreendiam que o meu estômago tinha reduzido de tamanho e que bastava comer mais um pouco para ficar mal disposta. Por vezes não conseguia fazer a digestão, o meu estômago inchava de tal maneira que só voltava ao normal na manhã seguinte. Acho que precisava da noite toda para decompor a comida que ingeria.

A pressão que sentia só fazia com que não me apetecesse comer, era o meu grito de revolta. A alta hospitalar trouxe-me uma liberdade acrescida porque tive permissão para voltar às aulas. Voltei à escola e percebi que tinha perdido a matéria quase toda. A pressão de querer ter boas notas em conjunto com a pressão que sentia para comer depressa começaram a fazer moça e voltei a deixar de comer.

Sai do hospital com 46 quilos. No fim de Março cheguei ao 47,5 e voltei a ter menstruação mas em Junho já andava de volta perto dos 40 e falava-se em novo internamento.

Foi também por essa altura que soube que a Catarina tinha falecido. Ali estava eu prestes a ser internada novamente, a sofrer por uma amiga que tinha sucumbido à doença quando percebi que ainda existia esperança para mim. Se tinha força para me matar à fome também haveria de ter forças para recuperar. Percebi que não queria morrer. Que não queria viver a minha vida em hospitais. Não queria continuar a provocar sofrimento aos que me amavam e não queria continuar a sofrer também.

Foi nessa altura que resolvi lutar por mim. Costumo dizer que a anorexia nervosa é uma vicio como a droga, o álcool ou o tabaco. Enquanto a pessoa não se mentaliza que têm aquele problema e resolve lutar não há nada que possamos fazer. A luta têm que partir de dentro  porque apenas nós nos podemos salvar de nós próprias.

Nos dois anos que se seguiram continuei a ser acompanhada no hospital. Fiz consultas de psiquiatria e psicologia se bem que com o tempo o intervalo entre consultas foi aumentando. Por fim chegou o dia em que a médica me disse que não precisava voltar mais mas que a porta dela estava sempre aberta para mim. Foi ai que percebi que não existe uma cura para esta doença. É uma doença que me irá acompanhar para o resto da vida. Ela segue-me como uma sombra para todo o lado. Espera por um momento de fraqueza para voltar a atacar. A diferença é que agora sei que ela me acompanha e sei o que fazer para nunca a deixar ser mais forte que eu.

A ignorância da falta de informação

''Tiveste anorexia porque quiseste''

Se há coisa que me irrita e me deixa fula da vida, é quando ouço uma coisa destas! E, provém muitas vezes de pessoas que me eram chegadas na altura...
''Ah. Naquela altura em que tinhas as manias das dietas?'' 
Qual a parte que as pessoas não percebem de que não é uma dieta e muito menos é uma mania?!
Como é possível ainda existir tanta falta de informação e de sensibilidade ?! Vocês não imaginam o possessa que fico quando ouço destas pérolas! E sim, ouço-as mais vezes do que imaginaria...
Foi, por coisas destas, que eu e a Catarina tentamos  desmistificar um pouco essa doença.  Porque ouvir estas coisas, magoa. A serio, magoa mesmo! Parece que nos culpam por termos estado doentes. Que somos nós as culpadas por ela existir.
EU NÃO TIVE  ANOREXIA PORQUE QUIS. EU NÃO ESTIVE DE DIETA! 
Vocês pensem bem quando falam...imaginem que um filho vosso tem esta doença. Vocês vão continuar a agir assim, com ignorância?  Por favor não o façam! Não irá ajudar. Muito pelo contrario!  Tentem informar-se um pouco. Se não ajudam, não atrapalhem. (Sim, acreditem que pode atrapalhar muito na recuperação de alguém com anorexia). A anorexia é uma doença e deve ser tratada como tal. 

O internamento (Catarina)

O internamento foi uma experiência dolorosa.  Fiquei sozinha num ambiente desconhecido.  Felizmente tinha duas companheiras de quarto, ambas com anorexia, que me acolheram e reconfortaram. Aos poucos fomos desenvolvendo amizade o que fez com que não me sentisse tão desamparada. O pior foi quando no primeiro fim-de-semana elas tiveram autorização para ir a casa e eu tive que ficar sozinha. Foi-me explicado que durante 15 dias não poderia sair do hospital o que significava que, entre o fim de tarde de sexta-feira e a noite de domingo estava entregue aos meus pensamentos. Também não podia ter telemóvel, precisava de permissão para fazer chamadas do telefone do serviço e os meus pais só me podiam ligar à noite.

Em parte até me sentia aliviada por não ter que falar com eles porque afinal a conversa acabava sempre da mesma forma. Acabava por falar com eles mais porque sabia que o Rodrigo passava todos os dias lá em casa para saber de mim. Era dele que mais sentia falta. Era o meu companheiro, o meu confidente. Para além de namorado era o meu melhor amigo, no fundo, acho que era o meu único amigo porque tratei de afastar os restantes.

Os dias passavam devagar. Contávamos as horas para a próxima refeição, comíamos e esperávamos pela seguinte. Nos intervalos entre  as refeições falávamos, riamos, brincávamos. Eu aproveitava para ler, pintar e escrever cartas que enviava pelos correios para o Rodrigo. Também recebia cartas dele, que lia e relia vezes sem conta.  Ainda as tenho todas guardadas com muito orgulho.

Todas as quintas-feiras tínhamos que nos pesar, antes do pequeno almoço, para ver o aumentado de peso.  Aprendemos a boicotar um pouco as pesagem na esperança que isso significasse que iríamos para casa mais cedo. Íamos para a balança de bexiga cheia e bebíamos um litro de água antes.  Todas as gramas interessavam para chegarmos ao peso que nos permitiria ir para casa.

A nossa relação com a comida continuava a ser problemática. As refeições demoravam uma eternidade e eram feitas em silêncio.  Nós esforçávamos-nos para comer tudo mas era difícil. Eu aprendi a fazer batota também na comida. Deitava o iogurte do meio da manha inteiro para o lixo.  À noite  fingia que estava a dormir quando me vinham dar a ceia, assim deixavam-me um pacote de leite que eu despejava pelo ralo do lavatório.

Apesar das falcatruas o peso ia subindo. As minhas amigas tiveram alta e coube-me a acolher outras meninas. Ao mesmo tempo vim a conhecer uma homónima que frequentava as consultas externas. Travamos uma amizade instantânea. Ela ia visitar-me muitas vezes, contava-me tudo o que estava a passar. Eu tentava dar-lhe coragem para pelo menos tentar aumentar um pouco o peso. Nunca tinha visto ninguém tão magra, tinha quase um metro e oitenta e pesava quarenta quilos.

Mais tarde invertemos papeis. Eu tive alta e ela acabou por ser internada.  Passei a ir eu visita-la. Contudo esteve lá pouco tempo porque recusou o tratamento. Como já era maior de idade não poderia ser mantida contra a sua vontade.  Recebi, uns dias mais tarde, uma carta por parte dos pais a informarem-me que tinha acabado por sucumbir à doença. Chorei.  Julguei-me uma má amiga por não ter sido capaz de a ajudar. Senti-me revoltada pela forma como a carta reflectia um certo alivio por parte dos pais. Depois percebi que deve ter sido um alivio para aqueles pais. Deixaram de ver a sua filha a morrer um bocadinho de cada vez. Deixaram de tentar incutir-lhe juízo. Deixaram de ter medo que morre-se caída nalgum canto.

Esta história não é nossa, mas é de uma das nossas...

Esta história não é nossa. Não fomos nós que passamos por isto. Mas, foi uma das nossas! Uma das que superou... Deixamo-vos com a história da Vanessa:

 

"A minha história foi muito oscilante porque sempre fui gordifas e um bom garfo, todavia, não me encaixava nos cânones da vila onde vivia: todas eram morenas, adelgaçadas e de olhos verdes. Eu era o oposto. Sempre quis ser igual as meninas de lá porque apaixonei-me por um tipo muito bonito e a beleza era tudo para ele, todavia, sempre fui gordifas (até me refugiei mais na comida) ! Depois estive noiva sete anos; família pacata, sem julgamentos, namorado que me amava... Sou nortenha; por norma come-se muito por lá ! Sempre fui um garfo exageradamente saudável ! Comia Francesinhas a pacotes ! Comecei a emagrecer quando a relação acabou: perdi o apetite e queria ir conquistar o outro que só queria saber de beleza e para isso era preciso eu ser magra e, óbvio, perdi o apetite.

Não, eu estava sozinha no mundo !

Numa discussão sai de casa e passei a viver em quartos alugados e a trabalhar como empregada de mesa, consequentemente, trabalhava que nem uma moura e vivia sem comer e sem ter fome, todavia, nunca quis ser acompanhada por um médico mas ainda me derigi a psiquiatria as urgências algumas vezes e ai encontrei uma miúda que também sofria de anorexia, boa aluna, filha de professores, muito bonita.... Amas adoecemos com infeções nos pulmões na mesma atura (em inícios de 2009) por não termos quaisquer defesas no corpo ... Eu estava uma lástima. Não conseguia respirar e o meu patrão até colou na cabeça que poderia ter tuberculose: só tossia, respirava com dificuldades e conseguias ouvir-me a respirar a kms de distância tal era a chiadeira... Tive o inicio de uma pneumonia e não tinha defesas para combate-la mas miruculosamente combati-a.

A miúda de 15 anos não resistiu: faleceu, perante uns pais agonizados e incrédulos que viram a sua filha morrer !

A mãe que é professora de psicologia redigiu um livro acerca da doença da filha e de como foi encarar a morte dela.

Também me ajudou na minha luta pessoal. Vê-la morrer fez-me engordar em seis meses para 62 kilos" #HOTDEVIL

Vocês perguntam. Nós respondemos # 5

A semana passada não houve oportunidade de responder à nossa rubrica mas esta semana voltamos em força. Vamos então esclarecer a B que nos deixou a seguinte pergunta:

 

P: Gostaria de saber em que idade é que a doença se manifestou e a sua duração?

 

Catarina: No meu caso a doença manifestou-se aos quatorze anos de idade. Fui sempre perdendo peso durante o ano seguinte. Quando tinha quase dezasseis anos sofri um internamento de dois meses. Sai do hospital com um peso aceitável mas depressa o recomecei a perder. Cerca de meio ano mais tarde levantou-se a questão de um novo internamento e foi quando me convenci que tinha que lutar. Recomecei a recuperar até atingir o peso minimamente saudável. Mesmo assim ainda tive consultas durante mais dois anos. Claro que a regularidade das mesmas foi diminuindo até chegar ao dia em que tive a tão esperada alta, tinha dezoito anos.

Vânia: A anorexia esteve presente na minha vida mesmo sem nós percebermos. Desde pequena que não gostava de comer e não tinha fome... Mas a anorexia nervosa manifestou-se nos meus 15 anos, 16, talvez. Não sei ao certo a idade pois confesso que nunca fui muito de comer. Mas foi nessa altura em que passei só a comer a tal meia maçã de que já falei e perdi 20 kgs em muito pouco tempo.
Entre consultas e fases, pesagens, análises, soro, vitaminas e ameaças de internamento foram uns 5/6 anos. Não tive uma ''alta'' pois depois da anorexia fiquei com uma hérnia no hiatos e a má relação com a comida continuou, assim como as idas ao hospital levar soro. Não tive sorte nisso...
Penso que há uns 6 anos que posso dizer que estou bem.

Para a semana irão saber a resposta à pergunta da Filipa Iria, fiquem atentos.

 

Vocês perguntam. Nós respondemos!

Só para informar que continuamos a aceitar perguntas para a nossa rubrica Vocês perguntam. Nós respondemos.

Façam as perguntas que quiserem, sem medos. Nós vamos tentando responder a todas, cada uma num post de forma a que a pergunta possa ser esclarecida por nós, pela nossa experiência e pontos de vista. 

Beijinhos e Bom Fim de Semana,

Catarina e Vânia

Outras histórias...

Saiu um artigo no Expresso que nos foi somente um bocadinho familiar. Sim, "somente um bocado familiar" pois nenhuma de nós chegou ao ponto em que a protagonista desta história chegou.

Também a nossa querida Débora, do blog Heidiland, achou interessante esta matéria e lembrou-se de a partilhar conosco. Partilhamos convosco também (poderão ver a matéria completa em A anorexia tirou-lhe dez centímetros de altura. E muito mais.).

 

"Levados ao limite, os distúrbios alimentares matam. Tratados, são curáveis. No verão, as adolescentes expõem os corpos, comparam formas, tomam decisões. Algumas escolhem o caminho da privação alimentar. Desde 2010 realizaram-se 12.858 consultas e só em 2015 foram 47 os internamentos no Hospital de Santa Maria. Patrícia é um caso-limite. Há 25 anos sofre de anorexia nervosa. A doença provocou-lhe uma severa osteoporose e, quando estava a morrer, apenas nos Estados Unidos encontrou solução para lhe sustentar a coluna. Conta o que passou para que não se repita"

 

"Aos 34 anos, o peso mínimo que Patrícia chegou a ter foi 20 quilos. Pouco, para quem media 1,60 metros. O cérebro deixou de responder a contento e os órgãos começaram a falhar. Hoje, depois de vários internamentos e de uma complexa cirurgia nos Estados Unidos, Patrícia pesa 38 quilos e come para mudar um percurso de vida marcado por uma anorexia nervosa grave. Pelo caminho perdeu dez centímetros de altura e ganhou oito parafusos cromados na coluna. Escolheu morrer, mas foi-lhe dada a oportunidade de viver e por isso decidiu contar a sua história. Porque acredita que será possível ajudar outras jovens a evitar a privação alimentar severa.

 

1. NO INÍCIO, LAVAVA AS MÃOS

“Desde que sou gente que me recordo de ter uma relação especial com a comida. Lembro-me de estar sempre a lavar as mãos, até criar frieiras. Acho que comecei a fazê-lo com nove anos. Pensava que tudo o que entrasse no meu corpo tinha de ser puro. No fundo da minha memória há uma recordação de estar a mamar e não querer, sentir repugnância.”

Assim, num golpe, Patrícia explica como o distúrbio alimentar começou. Como se fosse indissociável da própria identidade. A doença foi-lhe diagnosticada aos 13 anos, quando passou a ser acompanhada psicologicamente. Tem 39 e é considerada pela equipa que a acompanha no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, como um dos casos mais graves que ali deram entrada. É um exemplo limite que serve para mostrar até onde a privação alimentar pode levar uma pessoa. A maior parte dos casos de anorexia nervosa que são tratados recuperam e apenas 30% se tornam crónicos (ver entrevista abaxo). É o caso de Patrícia. Nada no seu relato é ficcional.

 

2. LINHAS ARREDONDADAS NÃO

“Não gostei de ver os meus seios a crescer e as ancas a arredondar. Comecei a usar T-shirts em cima de T-shirts para esconder o corpo. Queria travar aquilo. Tinha medo. E não era de comida. Não sei do que era. Aos 13 anos fui fazer uma ecografia porque a minha menstruação não era regular e encaminharam-me para uma consulta psiquiátrica. Foi no verão e o médico recomendou o internamento. Na altura, eu estava sempre a pensar no que poderia fazer para não comer. Tinha muita fome, mas, mais importante do que me saciar, era encontrar uma forma de enganar as pessoas e não comer. Cheguei a pesar 27 quilos.”

Durante dois meses Patrícia esteve internada. No hospital, apenas outra jovem, então com 20 anos, lhe servia de espelho. Foi a primeira vez que conviveu com uma pessoa com anorexia. Alguém que conseguia ser ainda mais magra do que ela. Um dos passatempos era a comparação do diâmetro das coxas e a outra batia-a aos pontos porque tinha as pernas ainda mais estreitas. Em ambas, o mesmo sentimento de desconforto e inadaptação.

 

3. GANHAR PESO E AINDA SER MAGRA

“Entre os 15 e os 28 anos pesei cerca de 45 quilos e estava satisfeita porque ninguém me chateava e ainda diziam que era magra. Acabei o colégio, entrei para Arquitetura, fui estudante Erasmus em Paris, comia baguetes. De volta a Lisboa, comecei a trabalhar em cinema, à frente das câmaras, e parecia que finalmente me tinham dado uma vida para viver: a da personagem. Quando atuava não pensava em comida. Foi a altura em que me senti feliz no meu corpo. Mas o meu único irmão morreu de leucemia. Eu tinha 28 anos e ele tinha 31.”

Não comer foi a saída encontrada por Patrícia para lidar com a perda. Em causa já não estava o objetivo de ser magra, simplesmente não conseguia comer. O corpo dela estava programado para ter fome e no fim do curso pesava 32 quilos. Passaram-se seis anos de alimentação insuficiente, durante os quais foi perdendo peso, gordura, músculos. Tinha dores terríveis e ficou encurvada. Os órgãos estavam comprimidos, sem espaço para funcionar corretamente, sofria de diarreia. O pescoço não podia sustentar-lhe a cabeça. Patrícia não queria, mas, mesmo que quisesse, não conseguia alimentar-se. Aproximou-se do peso limite: 20 quilos.

 

4. RESPIRAR, SÓ NOS ESTADOS UNIDOS

“Aquela era a pior maneira de estar viva. Sofria de um achatamento intervertebral devido à osteoporose causada pelos muitos anos de anorexia. Estava disforme e custava-me respirar. Certo dia, enquanto fazia exercício, senti a coluna estalar e as vértebras ruir. Procurei ajuda na internet e um cirurgião respondeu-me do Hospital Monte Sinai, em Nova Iorque. Disse que me operava se eu pesasse 20 quilos. Tinha 34 anos e aqui em Portugal ninguém queria ajudar, diziam que não tinha peso suficiente para suportar a cirurgia. Estava a morrer. A operação nos Estados Unidos era muito cara, mas o meu pai, que sempre foi o meu pilar, já tinha perdido um filho e sabia que estava a perder a única filha que lhe restava. Vendemos a nossa casa em Lisboa. Era a minha vida ou a casa.”

A cirurgia de osteosíntese para juntar as vértebras da coluna com parafusos no Monte Sinai em 2012 custou cerca de 270 mil euros aos pais de Patrícia. Tiveram de se mudar para uma casa da família na zona da Covilhã. E foi ela quem tratou de tudo para partir. Além dos detalhes burocráticos, do envio de exames por e-mail, era preciso preparar a alimentação: saquinhos com cereais integrais e tofu. Em Nova Iorque, o neurocirurgião que a operou ficou tão impressionado com a situação que não hesitou em avançar, apesar dos riscos. No dia em que completou 35 anos, Patrícia foi operada.

 

5. NA CIDADE QUE NÃO DORME

“Quando cheguei ao hotel, parecia que todos olhavam para mim por ser tão magra. No hospital, nas vésperas da operação, os médicos mandaram-me comer tudo o que conseguisse, um conselho assustador para qualquer anorética. Eu pensava que não iria suportar a cirurgia e sentia-me tranquila por ir morrer. Estava à espera disso há muito tempo. Mas no dia a seguir à operação, acordei. Foi uma sorte. Agora quero viver. Nunca mais quero sentir a sensação de ter menos de 35 quilos, quando o meu cérebro não me responde. Quanto mais alimento dou ao meu corpo, menos anoreticamente eu penso.”

Patrícia partiu sozinha para Nova Iorque. Com ela, levava os seus 20 quilos e pequenos sacos com amêndoas secas. Ficou cerca de um mês. A recuperação foi dura porque tinha dificuldade em andar devido à falta de forças e o movimento fazia parte do tratamento. Os médicos insistiram, apoiaram-na. O corpo dela assemelhava-se ao de uma mulher com 80 anos. Depois da cirurgia, usava um colete plástico para alinhar a coluna e tinha uma grande cicatriz nas costas.

 

6. NADA É MAIS PERFEITO DO QUE O ZERO

“De regresso a Portugal, continuei a restringir a alimentação. E a fazer exercício. Como não consigo fazer muito mais, andava. Acordava de madrugada, saía descalça, no frio, e andava muito, subia escadas. Quando cheguei aos 22 quilos fui internada no Hospital da Covilhã e entubaram-me, alimentaram-me por sonda. Foi como se tivesse sido violada. Mas sobrevivi. Vim para Lisboa para novo internamento. Há dez anos que nada mais se passa na minha vida. Mas desta vez vai correr bem: finalmente fiz as pazes com a morte do meu irmão.”

Este ano, em Santa Maria, Patrícia não foi sedada. Medicada, sim. Os médicos administraram-lhe uma dieta hipercalórica. Hoje, quando se deita, os parafusos doem-lhe. Estão lá para ficar. Pesa 38 quilos e a meta são os 40. Sabe que se baixar novamente para os 20, morre. O corpo parou de se desmoronar, mas há um longo caminho a percorrer. Deixar de comer dá-lhe imenso prazer: “Ainda sou prisioneira, continuo a pensar que nada é mais perfeito do que o zero, que um corpo vazio está limpo e organizado. O meu corpo é o meu campo de batalha. 

Por: Christiana Martins

 

Nós as duas desejamos imensa força a esta guerreira. Nenhuma de nós passou pelo mesmo que ela mas ficamos solidárias e achamos de extrema importância mostrar no nosso blog a história da Patricia. 

Um beijinho na alma desta guerreira... e um nas vossas! 

 

Estás mais magra! - Catarina

Esta deve ser a frase que todas as mulheres sonham ouvir, todas menos eu. De tudo o que me podem dizer esta é, talvez, a frase que me cai mais mal. Principalmente se esta frase vêm de alguém que me é próximo. Por norma já sinto que as pessoas me pesam com os olhos de cada vez que me vêm e quando me dizem este tipo de comentários tenho a certeza que o meu peso continua a ser uma preocupação.

Sim sou magra. Sim por vezes relaxo-me com o comer. Sim por vezes esqueço-me de comer. Sim tenho fases em que sei que me deixo ir um pouco mais abaixo do que deveria. Contudo percebam que eu sei que fico mais magra, noto no espelho, noto na roupa, noto na cara e noto principalmente quando começo a morder as próprias bochechas.

Eu noto, não vivo em estado de negação. Não vou deixar de comer outra vez aliás nunca arriscaria a minha saúde. Sei que já o fiz no passado mas o que lá vai lá vai. Não precisam de ficar com medo se eu hoje não tenho fome porque amanhã ou depois já voltou tudo ao normal. Será que sou a única pessoa no mundo que têm oscilações de fome? Num dia como este mundo e o outro, no dia seguinte quase nem me apetece comer. 

Será que não somos todos assim? Num dia bebemos litro e meio de água e no dia seguinte só bebemos dois copos. Não? Serei só eu?

Sei que o facto de ter estado doente em adolescente causou muito transtorno, sim foi muito difícil. Mas foi uma batalha que ganhei. Uma batalha que me orgulho de ter ganho. Já diz o ditado "O que não nos mata torna-nos mais fortes". Sim é assim que me sinto, forte porque tomei as rédeas da minha vida. Porque quis viver, porque quero viver. Sim fui anoréctica, fui anoréctica não sou mais e nem faço intenções de ser nunca mais.

Não precisam de ter medo cada vez que eu perco um quilo ou dois porque depressa os recupero. Desde que me lembro que o meu peso têm sido este, um quilo ou dois a mais, um quilo ou dois a menos. Quem é que não é assim. Se uma pessoa perde peso existe logo alguém que vêm dar os parabéns. Se eu perco peso já anda tudo a mandar-me comer e prontos a internar-me nalgum lado.

Sou uma mulher adulta, tenho quatro filhos. Filhos que não teria sido capaz de geral se não fosse saudável. Eu sei que é difícil esquecer. Eu também não esqueço o que passei, o que passamos. Mas temos que deixar de viver com medo. Porque é medo que eu vejo muitas vezes nos vossos olhos e não posso deixar de pensar que não confiam no meu bom senso.