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Duas Bloggers, Duas Histórias, Uma Doença : A Anorexia.

Duas bloggers, irmãs na doença, juntaram-se num só blog para contarem as suas vitórias. O nosso objectivo será sempre ajudar (se possível) quem esteja a passar por esta doença... a anorexia!

O inicio - Catarina

Nunca gostei muito do meu corpo. Não sei bem porque mas a verdade é que nunca me senti à vontade com ele. No entanto vivia feliz, era uma autêntica maria rapaz. Adorava jogar à bola, ao berlinde, ao mata, subir às árvores, etc. Por volta dos doze anos o meu corpo mudou e a minha vida tomou um rumo diferente. Deixei de ser a companheira dos rapazes porque passei a ser alvo de admiração. Não me pude juntar às raparigas porque nunca fomos muito amigas e para além disso eram demasiado infantis para mim.

Deixei de ser uma rapariga que se dava bem com todos. Eu continuava a querer dar-me bem com todos mas os rapazes já não me tratavam da mesma forma. Nunca me achei bonita nem interessante mas o facto de ter desenvolvido corpo de adolescente primeiro que as outras transformou-me numa garota popular. O problema é que eu não queria ser popular. Não queria ver os meus amigos lutarem porque um deles me acertou com uma bola e me poderia ter aleijado. Não queria ter que cumprimentar a escola toda quando entrava e ser apresentada a rapazes a toda a hora. Aos doze passava perfeitamente por dezasseis pelo que podem imaginar que a atenção vinha de todas as faixas etárias.

Aos treze eu e uma das minhas poucas amigas apaixonamos-nos pelo mesmo rapaz. Eu ganhei o rapaz mas afastei a amiga embora esta me tivesse dito que não havia problema. Mais tarde no verão fiquei um mês na terra do meu pai. Ao longo deste tempo foram passando visitas. Umas das visitas foram uns primos que acabaram por deixar connosco o enteado do meu primo. Ele era mais novo do que eu mas sempre nos demos muito bem. Tornamos-nos inseparáveis, jogávamos cartas, passeávamos, conversávamos. Senti que tinha ganho um amigo para a vida até que regressamos a Lisboa e nunca mais tive noticias dele. Estranhei o facto de se afastarem de um momento para o outro, vim depois a saber que regressou de férias apaixonado por mim e a mãe achou por bem impedi-lo de me ver. Mais uma vez perdi um amigo e senti-me sozinha.

Ao chegar aos quatorze vi-me numa relação sem perceber bem como. Nunca amei o rapaz em causa mas tinha muita pena dele. Conheci-o e aos poucos fui sabendo da história familiar dele. Sofrimento atrás de sofrimento e não fui capaz de lhe causar mais desgosto. Contudo depressa percebi que nunca o iria amar, a nossa relação iria basear-se no facto de sentir pena dele o que não era aceitável para nenhum dos dois. Ao mesmo tempo conheci o meu marido e percebi que não poderia continuar com aquela farsa.

Acabei o namoro, a noticia espalhou-se e no dia seguinte já tinha o meu homem à perna.Poderiam ser tempos felizes mas a verdade é que não foram. O meu ex ligava-me todos os dias alcoolizado. Chorava e pedia-me para voltar para ele. Perguntava-me o que tinha feito de mal e ameaçava matar-se. Eu morria de medo que se matasse afinal a mãe dele já o tinha feito e tinha sido ele a encontrá-la. Temia o que seria dos três irmãos mais novos se ele fizesse uma loucura. Sentia-me mal, sentia-me lixo. Afinal eu tinha trazido aquilo para a minha vida. Eu tinha brincado com os sentimentos dele embora não por maldade. Juro que o tentei amar mas não mandamos no coração.

Todos os dias a mesma coisa. Tremia de cada vez que o telefone tocava mas corria imediatamente para ele com medo que a minha mãe atendesse. Ouvia-o chorar, eu chorava do lado de cá e sentia-me a pior pessoa do mundo. Não podia falar com ninguém. Não podia contar à minha mãe, tentei contar as amigas mas para elas eu só tinha que deixar de lhe dar troco. Tentei contar ao Rodrigo, ele ouvia-me mas ficava ruído de ciumes. Tratei então de guardar tudo para mim e tentar arranjar uma solução. Após alguma reflexão percebi que o meu corpo era o culpado por tudo o que me corria mal na vida. Achei que se emagrece-se  meu ex ia deixar de gostar de mim. Os outros rapazes iam deixar de olhar para mim afinal eles gostavam era de curvas. Se eu não tivesse curvas tudo iria melhorar e eu iria conseguir ser feliz.

E foi assim que eu resolvi perder 5 kg.

 

Beijinhos,

Catarina

 

2 comentários

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    Catarina 28.07.2016 17:19

    Obrigado pelas tuas palavras. Escrevi o texto com muita facilidade mas quando o acabei achei que não transmitia o que senti nesta altura. Pedi opinião à Vânia e ela disses-me que estava bom. Acabei por o publicar pensando que ninguém me ia entender. No entanto vejo que tu me viste e fiquei muito comovida pelas tuas palavras. Obrigado e volta sempreImage
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